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Basquete

 

O dia em que Oscar fez o mundo parar e o Brasil chorar de alegria



A morte de Oscar Schmidt, aos 68 anos, nesta sexta-feira, convida o Brasil a revisitar a noite de 23 de agosto de 1987



Oscar Schmidt, 1958–2026. Maior cestinha da história do basquete brasileiro. Campeão pan-americano em 1987
Foto: Hipólito Pereira/ 23-8-1987

Há noites que não pertencem apenas ao esporte. Pertencem à memória de um povo. O dia 23 de agosto de 1987, em Indianápolis, é uma dessas noites. Dentro do Market Square Arena, diante de 16 mil americanos que esperavam uma coroação, um brasileiro de 1,96m pegou uma bola, apontou para a cesta e começou a reescrever a história. Seu nome era Oscar Daniel Bezerra Schmidt.

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Oscar Schmidt nos deixou nesta sexta-feira (17), aos 68 anos. O Brasil perde o maior cestinha de sua história e o mundo perde um dos maiores jogadores que já tocaram em uma bola de basquete. Mas nenhuma saudade, por maior que seja, é capaz de apagar a noite em que um homem comandou um time inteiro rumo ao impossível e fez uma nação chorar de alegria.

O milagre de Indianápolis

Seleção Brasileira comemorando a vitória sobre os EUA no Pan de 1987 (Arquivo CBB)

Ao fim do primeiro tempo, o placar dizia o que a lógica previa: Estados Unidos 68, Brasil 54. Uma diferença de 14 pontos que, naquele contexto, parecia um abismo. As arquibancadas americanas respiravam aliviadas. O ouro dos Jogos Pan-Americanos de 1987 era deles. Sempre havia sido.

Então Oscar Schmidt entrou nos vestiários, olhou para seus companheiros — André, Gerson Victalino, Israel, Pipoka, Guerrinha, Silvio, Marcel, Maury, Paulinho Villas Boas, Cadum e Rolando — e o jogo mudou antes mesmo de recomeçar.

O que aconteceu na segunda metade daquela partida é, até hoje, um dos capítulos mais extraordinários do esporte brasileiro. O Brasil venceu o segundo tempo por 66 a 47. Oscar Schmidt, sozinho, marcou 35 dos seus 46 pontos totais apenas naquela etapa final. Trinta e cinco pontos em um tempo. Contra os Estados Unidos. Em Indianápolis.

A mão que tocou o infinito

Havia uma razão técnica, além do talento sobrenatural, para a supremacia de Oscar naquela noite. A linha de três pontos era uma novidade ainda mal digerida pelo basquete americano: a NBA usava uma distância maior que a da Fiba, enquanto os campeonatos universitários colocavam o arco ainda mais perto da cesta. Nenhuma das duas media o mesmo. O Brasil conhecia a distância da Fiba. Os americanos, não.

Ao longo de todo o torneio em Indianápolis, ele acumulou 249 pontos em sete jogos. Quando a buzina soou e o placar apontou 120 a 115, Oscar Schmidt desabou em choro na quadra. Não era fraqueza. Era a descarga de um homem que havia carregado, nas costas e nas mãos, o peso de um milagre.

A derrota que criou um sonho americano

Jogos Olímpicos de Barcelona-92. Michael Jordan e Oscar Schmidt no jogo em que os EUA venceram o Brasil, que ficou em 5º lugar – Foto: Anibal Philot/ Agência O Globo

Os Estados Unidos chegaram ao torneio carregando o peso de uma invencibilidade que parecia eterna: mais de 60 jogos sem derrota em competições oficiais, e nenhuma derrota jamais em casa. Claro que não trouxeram seus astros da NBA, já que as regras da época proibiam profissionais. Mas o elenco universitário americano era, para qualquer análise racional, imbatível.

Os Estados Unidos saíram daquele ginásio com mais do que uma derrota. Saíram com uma ferida no orgulho. Um ano depois, em Seul-1988, viria outra humilhação: o bronze olímpico. A resposta americana demorou cinco anos para ser formulada, mas quando veio, foi avassaladora. Em Barcelona-1992, o mundo conheceu o Dream Team: Michael Jordan, Magic Johnson, Larry Bird, Charles Barkley, Patrick Ewing, e o próprio David Robinson, que havia sido derrotado por Oscar em 1987.

A Fiba mudou suas regras e passou a permitir atletas profissionais da NBA nas competições internacionais. O Brasil de 1987 não apenas venceu uma final. Ele forçou o esporte a se reinventar.

O legado que nenhuma buzina encerra

Acervo Pessoal: oscarschmidt14.com.br

Oscar Schmidt terminou a carreira sem nunca ter jogado na NBA — uma escolha, não uma limitação. Preferiu defender a seleção brasileira, algo que não poderia fazer se tivesse ido para a liga estadunidense. Encerrou com mais de 49 mil pontos somados em toda a carreira, um número estratosférico.

Mas se há um momento que define o que ele foi, é aquele. Uma quadra em Indiana, um brasileiro chorando de joelhos, e 16 mil americanos em silêncio diante de algo que não deveriam ter visto.

Oscar Schmidt se foi nesta sexta-feira. Mas a bola que saiu das suas mãos naquela noite de agosto ainda está no ar.

E nunca vai cair.

Paulista em terras mineiras. Jornalista pela Universidade Federal de Minas Gerais. Apaixonado por esportes.

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