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Espírito Esportivo

Da infância humilde ao pódio em 2020: o sonho de Ygor Coelho

Melhor brasileiro da história do badminton, Ygor Coelho é o atual 38º. do ranking mundial e espera seguir crescendo para chegar em Tóquio 2020 com chances de medalha

Nascido e criado na Chacrinha, comunidade pobre da zona oeste do Rio de Janeiro, Ygor Coelho aprendeu a jogar badminton no projeto social do pai dele que fica dentro da favela e é um exemplo do quanto o esporte pode mudar a vida de uma pessoa. Aos 19 anos disputou a Olimpíada do Rio de Janeiro, mas foi a partir de 2017 que ele começou a crescer para valer na carreira.

Ele saltou do 76º. lugar que ocupada na época dos Jogos de 2016 e chegou ao Top30 em março de 2018. Atual 38º. do ranking e recém mudado para a Dinamarca, onde está disputado a liga do país, que é uma das mais fortes do mundo, ele planeja continuar crescendo para chegar em Tóquio em condições de brigar por uma medalha olímpica.

“Em 2016, eu tinha 19 anos. Eu estava chegando. Tinha acabado de sair dos Jogos da Juventude e tentei uma vaga nos Jogos Olímpicos. E consegui! Isso mostrou que eu tenho talento, mas que eu tinha que trabalhar mais para chegar perto dos melhores do mundo. Então, eu estou muito empolgado e motivado para 2020. Estou querendo voltar para os Jogos Olímpicos com chances realmente de brigar por uma medalha, de ser mais forte”, afirma o brasileiro.

O curioso da história de Ygor Coelho é que ele aprendeu a jogar badminton no quintal de casa. Quando o atleta tinha dois anos, o pai dele, Sebastião Oliveira, fundou a Associação Miratus, um projeto social para ensinar a modalidade para as crianças da comunidade da Chacrinha. A ideia inicial era montar algo relacionado à natação, mas um colega de trabalho apresentou a Sebastião o novo esporte.

“Quando eu conheci a minha esposa, ela morava dentro dessa comunidade e, ao invés de eu tirar ela daqui, eu vim para dentro da comunidade porque eu vi as crianças brincando na rua e achei que tinha chance de ajudar muita gente”, relembra Sebastião. “Meu pai queria montar um projeto para intervir socialmente na vida dos jovens e, no Colégio Pedro II, onde ele trabalhava, um professor veio da Itália com duas raquetes e uma peteca e ele achou o esporte muito alienígena”, brinca Ygor. “Eu ficava olhando a raquete e não aguentei. Perguntei: que raquete é essa? Ele respondeu que era de badminton. Eu até perguntei: bad o que? Mas foi amor à primeira vista. É muito divertido”, conta Sebastião, que deu suas primeiras raquetadas com o amigo.

Sebastião Oliveira nem sabia que tratava-se de um esporte olímpico e construiu, no quintal da casa, a primeira quadra, com piso de cimento áspero, em cima do local que estava sendo preparado para ser feita uma piscina. O ano era 1998 e foi o início do projeto social. “Fiz a terraplanagem. Cavei mais de 190 buracos de 2,50m por 3m de profundidade. Tudo o que economizei na vida, aqui foi enterrado”, conta o pai de Ygor Coelho, que não se arrepende de nada. Muito pelo contrário. Com a ajuda de empresas e material que sobrou dos Jogos Pan-Americanos, disputados no Rio em 2007, ele conseguiu ampliar a Miratus, construiu mais quadras e colocou um piso adequado em todas elas.

O projeto ganhou a cara que tem hoje e enquanto ia crescendo, Ygor ia se desenvolvendo. Tudo começou para ele como uma brincadeira de criança, mas foi virando sério e o menino da Chacrinha se tornou atleta profissional. Hoje, no melhor ano da carreira, Ygor agradece e sabe que foi o pai que mudou a vida dele.

“Eu já tive amigos que morreram, usaram drogas. Já perdi amigos para o crime, pessoas que foram muito próximas a mim. A Amanda, que foi uma das melhores do Estado Rio de Janeiro e ia ser uma das melhores do Brasil, saiu e morreu. Se não fosse o esforço do meu pai de tirar do bolso para fazer tudo isso, ele não mudaria a vida das crianças. Esse projeto aqui salvou muitas vidas, mudou o destino de muitas crianças e mudou o meu também”, reconhece o melhor brasileiro da história do badminton.

Para obter os incríveis resultados conseguidos pela Miratus, Sebastião Oliveira criou um método de ensino de badminton muito brasileiro. Para aprender os movimentos de pernas, tão necessários na modalidade, as crianças caem no samba. “Eu consegui uma metodologia própria, que hoje ensina a sambar e vai até o samba-enredo. Então, você tem atletas aqui sambando para caramba e isso foi o ponto alto do resultado do nosso trabalho. Você trabalha o movimento de pernas de forma divertida. E quero te dizer que temos 23 títulos pan-americanos, mais de 30 sul-americanos, três títulos europeus e nossas crianças já viajaram para mais de 25 países”, enumera orgulhoso o pai de Ygor Coelho.

“Nós estamos criando aqui ídolos. Olha os professores aqui. As crianças hoje querem ser professores, querem jogar uma Olimpíada, querem ser o Ygor, que tem a responsabilidade hoje de fazer com que as comunidades hoje sonhem que é possível”, diz Oliveira, que joga uma grande responsabilidade no filho, que faz questão de assumi-la.

“Eu me sinto muito feliz de ter essa responsabilidade. Eu procuro incentivar, eu procuro ajudar. Eu sei que é muito difícil sair da favela, ter oportunidade e conquistar. E quando tem uma oportunidade, eu procuro falar ‘vai, se você tem chance, agarre 100% porque um dia você pode se tornar como eu'”, conta Ygor Coelho.

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