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Vôlei

Retrospectiva: Brasil faturou no Rio de Janeiro o tri olímpico de vôlei masculino

O terceiro ouro da seleção brasileira de vôlei masculino em Jogos Olímpicos tem a cara do líbero Serginho: raça, emoção e simplicidade. Foi a 19ª e última medalha brasileira na competição, a sétima de ouro, coroando o trabalho de uma geração que ainda tem muito a dar nos próximos ciclos olímpicos. Com exceção de Serginho. Aos 40 anos, o líbero aposentou sua camisa após a conquista do título numa vitória maiúscula sobre a Itália por 3 sets a 0 – parciais de 25/22, 28/26 e 26/24 – no Maracanãzinho. Ao estender a camisa no chão, viu seus companheiros de equipe fazerem reverência para ela, alguns chegando a se agachar para beijá-la, emocionados.

Nos três sets, a Itália – que havia derrotado o Brasil por 3 sets a 1 na fase de grupos – chegou a ficar um bom tempo na frente, com a seleção brasileira correndo atrás do marcador e disputando o jogo ponto a ponto. Na reta final de cada set, no entanto, o time nacional impôs seu ritmo de jogo. Apesar do placar apertado em todos eles, o Brasil nunca deu a impressão de que corria um risco real de não subir ao lugar mais alto do pódio. Com isso, a Seleção Brasileira de vôlei masculino tem três ouros (Barcelona 1992, Atenas 2004 e Rio 2016) e três pratas (Los Angeles 1984, Pequim 2008 e Londres 2012) em Jogos Olímpicos. Sendo que nas quatro medalhas de 2004 para cá, dois personagens estiveram presentes: o técnico Bernardinho e Serginho.

“Tudo conspirou a favor. A gente pegou uma chave muito forte quando a gente precisava se calejar. E essa equipe se torna muito forte quando é realmente necessário jogar, nós já provamos em outros momentos, em Mundiais e em Ligas. Porque, querendo ou não, o Brasil está sempre no pódio. Vai ganhar, vai perder, faz parte do esporte. Mas está sempre ali, em algum lugar do pódio”, disse Serginho, que fez questão de homenagear jogadores da geração campeã de 2004, da qual fez parte: “Lipe parecia o Giba, Lucarelli parecia o Dante, o que o Bruninho jogou hoje, o que o Wallace fez nessa Olimpíada, Maurício Borges, Maurício Souza…  Foi uma vitória de um grupo que merecia”.

Serginho havia se aposentado da Seleção Brasileira de vôlei masculino, aos 36 anos, após a medalha de prata de Londres 2012. Já tinha outra prata, em Pequim 2008, e um ouro, em Atenas 2004, e achou que era hora. Após o vice-campeonato Mundial em 2014, no entanto, o técnico Bernardinho convenceu o líbero a voltar. E ele foi fundamental para a conquista desse ouro, tanto dentro quanto fora de quadra.

“Serginho é mais do que um amigo, é um exemplo para todos nós. Ele foi de suma importância para essa geração ao voltar em 2014, não só pela experiência, mas porque ele coloca a alma em cada partida, em cada treinamento. Isso agrega. O discurso dele mais importante foi antes do jogo contra a França, quando ele disse que era a última chance dele e gostaria que nós fizéssemos por ele também. O Serginho disse que essa geração não podia morrer pagã. Que a gente não podia morrer sendo só uma geração de prata. Que a gente merecia o ouro. Quando o jogo acabou, a gente estava ajoelhado e chorando”, contou o levantador Bruninho, 30 anos, em coletiva após a partida.

A aparente facilidade na final não torna a conquista menos épica. O Brasil começou a campanha nos Jogos Olímpicos Rio 2016, na fase de grupos do torneio de vôlei masculino, com duas vitórias por 3 sets a 1 sobre México e Canadá, mas em seguida perdeu, também por 3 a 1, para Estados Unidos e Itália. Corria o risco de sequer se classificar para as quartas de final se não vencesse a França, na quinta e última partida classificatória. O oposto Wallace, maior pontuador da final com 20 pontos, confirmou que o papo de Serginho mudou tudo.

“O que a gente mudou a partir do jogo da França foi a postura dentro de quadra. O Sérgio teve um momento ali que chamou na chincha e isso daí sim faz toda a diferença num jogo como esse.  O que essa equipe treinou não está escrito. E é por isso que a gente ficava chateado, pelo fato de a gente treinar que nem um cavalo e não conseguir, no momento decisivo, pega a medalha de ouro. Aí gente entra numa Olimpíada dessas numa situação mais ou menos, com jogadores machucados, com dores, e eu pensando, ‘não pode! A gente não pode perder mais uma chance’. Houve a mudança de postura e a partir dali o time cresceu”, analisou Wallace, referindo-se às contusões de Lipe, Lucarelli e Maurício Souza, que atrapalharam os jogadores e a equipe em alguns momentos.

Serginho confirma que apelou para o coração dos companheiros, já que talento ele sabe que eles sempre tiveram de sobra. “Nós tivemos uma conversa muito legal quando tínhamos o jogo contra a França. E eu falei pra eles: ‘Cara, eu estou me sentindo numa UTI e quero sobreviver, e vocês vão lutar pra me tirar dessa UTI’. E os caras fizeram isso. Era a minha última Olimpíada, minha última tentativa de ser bicampeão olímpico, e os caras me ajudaram. Todos eles têm outro ciclo olímpico, eu não. Desde que a gente se reuniu em Saquarema para treinar para a Liga Mundial eu falei que essa equipe não ia morrer pagã e graças a Deus eu acho que fui peça fundamental”, disse.

O líbero se refere ao retrospecto recente da Seleção Brasileira de vôlei masculino, que conquistou seus últimos títulos de Mundial e de Liga Mundial em 2010 – e o Olímpico em 2004 – antes da maioria dos jogadores atuais estar em cena. Foram conquistas que se somaram aos mundiais de 2006 e 2002, aos Jogos Olímpicos de 1992 e a outras oito vitórias em Liga Mundial. A nova geração, no entanto, acumulou vice-campeonatos, batendo sempre na trave. Até agora. Por isso ele se sente pronto para realmente parar.

“Vou pra casa dormir na minha cama, ir a aniversário de amigos, viver minha vida. Voltar a ser o Sérgio normal, filho da dona Didi, pegar meus filhos na escola, comer o frango com pirão e o bolo de cenoura da minha mãe, porque isso aqui passa. Eu dei minha vida para o voleibol. Já o voleibol me deu uma hérnia de disco, uma operação no joelho, uma operação nas costas, quatro parafusos nas costas, e meu deu também quatro medalhas olímpicas, dois campeonatos mundiais e Liga Mundial, nem sei quantas… E meu deu amizades verdadeiras, o carinho das pessoas. Mas tenho o pezinho no chão, sei quem eu sou e de onde eu vim”. Ele finge que não, mas sabe também que escreveu seu nome na história não só do vôlei masculino do Brasil, mas do esporte nacional.

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