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Atletas do tênis de mesa paralímpico rebatem nota da CBTM



Atletas do tênis de mesa paralímpico rebatem nota publicada pela CBTM e pedem transparência e critérios técnicos objetivos para convocações



Claudio Massad do tênis de mesa paralímpico - atleta cobra transparência da CBTM
(Foto: Alexandre Schneider/CPB)

Na última semana, uma matéria do portal UOL tornou pública a insatisfação de um grupo de atletas da seleção de tênis de mesa paralímpico com a Confederação Brasileira de Tênis de Mesa (CBTM). Os mesatenistas enviaram uma carta ao Ministério do Esporte questionando exigências que a CBTM fez para que os atletas tivessem seus planos de trabalho aprovados para o recebimento da “Bolsa Pódio”. A Confederação emitiu uma nota oficial no final da semana em resposta ao caso. E nesta quarta-feira (16), os atletas voltaram a se manifestar sobre o caso, rebatendo alguns pontos.

Veja a íntegra da nota divulgada pelos atletas:

Após a resposta da CBTM, entendemos ser necessário rebater uma nota incapaz de entregar soluções aos principais problemas que enfrentamos.

Falta de transparência nos processos dentro da Confederação, descabidas exigências aos atletas quanto à destinação dos valores recebidos do Bolsa Pódio, os critérios para seleção dos atletas e identificação dos contemplados. Nem mesmo é possível ter acesso a uma prestação de contas detalhada de como o dinheiro público é utilizado pela entidade. Precisamos realmente entender onde e como esse dinheiro é gasto.

Amparados pela Lei de Acesso à Informação, Lei Pelé e Lei Geral do Esporte, os atletas paralímpicos do tênis de mesa do Brasil clamam por ajuda e voltam a questionar: por que apenas 4% dessa verba foi repassada aos atletas? Em 2024, quase 9 milhões de reais entraram nos cofres da CBTM vindos do Comitê Paralímpico Brasileiro, sendo que apenas 382 mil reais foram direcionados para o custeio dos atletas da Seleção Brasileira e pagamento de sparrings.

Se não bastasse a intimidação, a tentativa de censura e a retaliação velada contra críticas à entidade, agora há necessidade de investimento de recursos próprios dos atletas para a aceitação no programa de auxílio.
Ao permitir que apenas 10 dos 32 mesatenistas fossem custeados pela confederação nos últimos dois torneios internacionais, a CBTM demonstrou total incapacidade de explicar os critérios usados na escolha dos contemplados e deixou de fora os medalhistas e melhor ranqueados sem qualquer justificativa técnica.
Como alegar falta de recursos para custear mais atletas quando a própria CBTM divulga superávit no 1º trimestre de 2025 de quase 600 mil reais? Vamos até o fim em busca de garantir o melhor para o tênis de mesa paralímpico do Brasil.”

Cobrança por transparência

O OTD conversou com dois atletas que fazem parte do grupo: o medalhista paralímpico Cláudio Massad e o campeão mundial Paulo Salmin. Ambos alegaram estar sendo boicotados pela gestão da CBTM. A dupla, por exemplo, não foi chamada para nenhum training camp da seleção brasileira em 2025, apesar de estarem entre os 15 primeiros colocados do ranking mundial e serem os melhores brasileiros em suas classes funcionais.

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Assim como dito na nota publicada nesta quarta, Cláudio Massad falou ao OTD sobre a questão da falta de transparência da CBTM, na destinação de verbas para os atletas. “Tem 9 milhões de reais de recursos públicos que a CBTM recebe através de um repasse do CPB. O que eles estão fazendo com esse dinheiro? Cadê a transparência? Eles falaram para os atletas que foram medalhistas em Paris, que nossa medalha é passado. Passado para eles, porque para nós ainda é presente. E essas medalhas renderam muito dinheiro para a Confederação. O que eles estão fazendo com esses recursos públicos? É isso que a gente que entender”, afirmou Massad.

Pagando tudo

“Hoje eu sou o atleta masculino mais bem ranqueado do Brasil. Só eu e mais um outro atleta estamos no top-10 do mundo. E eu não estive em nenhuma convocação desse ano, seja para training camp, seja para uma lista que definiu quem é da seleção brasileira, eu fui colocado em nenhum nível. Enquanto tem jogador que é número 70 do mundo indo para evento na Tailândia nesse mês sendo bancado pela Confederação, sem nenhum tipo de critério”, afirmou Paulo Salmin.

Paulo Salmin do tênis de mesa paralímpico nos Jogos Paralímpicos de Paris
(Foto: Alexandre Schneider/CPB)

O campeão mundial nas duplas mistas ao lado de Bruna Alexandre participou de três torneios nesse ano, pagando tudo: hospedagem, alimentação, transporte. E mesmo mantendo o bom desempenho, com dois títulos e um vice-campeonato, Paulo segue de fora das convocações. “Tem atletas que estão na faixa do número 40 do ranking mundial que já foram para sete eventos pagos pela CBTM, enquanto esse ano eu só consegui ir em três torneios e todos com recursos próprios. Eu continuo ganhando e tendo performance e tenho nenhum tipo de convocação”, completou.

Retaliação?

Após a publicação das primeira reportagem sobre o caso no UOL, Clube Nova Era de Tênis de Mesa de Bauru, onde Massad e Salmin treinam, recebeu um ofício da CBTM, assinado pelo presidente Vilmar Schindler. O documento exige a devolução de alguns materiais da Confederação que foram destinados ao clube através de um contrato de comodato.

Cláudio Massad é de Bauru e já treinava no clube anteriormente, apesar de já ter passado alguns períodos treinando no CPB em São Paulo. Paulo Salmin treinava no CT Paralímpico até os Jogos de Paris-2024. Após a Paralimpíada, ele decidiu ir ao interior de SP para ficar próximo da sua família que é de Jaú e passou a treinar com Massad em Bauru. Além do Clube Nova Era, ambos também utilizam a estrutura do Sesi na cidade.

O que era para ser apenas algo temporário, virou fixo, com Salmin conseguindo uma estrutura melhor e um clima mais agradável para os treinos. E a mudança surtiu efeito, com o mesatenista subindo no ranking mundial. “Eu saí de São Paulo, refazendo todo o meu esquema de treinamento, exatamente por não ser conivente a essas coisas. Essa falta de meritocracia que é o jeito da Confederação trabalhar. E hoje estou com 31 anos na minha melhor posição no ranking mundial”, afirmou.

A denúncia ao Ministério do Esporte

Ao todo, nove atletas assinaram a carta enviada ao Ministério do Esporte. São eles: Bruna Alexandre Claudio Massad, Cátia Oliveira, Danielle Rauen, Jennyfer Parinos, Joyce Oliveira, Luiz Filipe Manara, Marliane Santos e Paulo Salmin. Os atletas somam 16 medalhas paralímpicas e oito em Campeonatos Mundiais.

O grupo alega que a CBTM impôs exigências excessivas para a utilização da Bolsa Pódio, incluindo a comprovação de participação em competições internacionais e um percentual mínimo de investimento por parte dos atletas. O Olimpíada Todo Dia teve acesso à carta dos atletas. O documento expressa insatisfação com a Confederação Brasileira de Tênis de Mesa (CBTM) e solicita “intervenção imediata” para assegurar que “o processo da Bolsa Pódio respeite os princípios da legalidade”. Os atletas também mencionam uma cláusula no contrato para uso do centro de treinamento do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) que proíbe críticas públicas à confederação.

O que diz a CBTM?

Após a publicação da reportagem do UOL, a CBTM emitiu um comunicado oficial, assinado pelo Comitê Executivo da entidade.

+ Leia o comunicado da CBTM do dia 9 de julho

O OTD entrou em contato com a CBTM para esclarecer alguns pontos questionados pelos atletas. Veja abaixo as respostas:

OTD: Quais são os critérios adotados pela CBTM para definir que atletas serão bancados pela entidade? Conversamos com mesatenistas que nos informaram que enquanto alguns atletas piores ranqueados têm todas suas despesas cobertas pela CBTM em algumas competições internacionais, outros precisam pagar do próprio bolso para poder participar desses eventos.

CBTM: O ranking não é o único critério para essa tomada de decisão. No tênis de mesa paralímpico, a diferença no número de atletas praticantes em cada classe é gritante – em algumas classes, temos cerca de 80 atletas; em outras, por volta de 20. Para contemplar a diversidade dos atletas, avaliar apenas posiciona ranking não seria justo.

Portanto, a Confederação Brasileira de Tênis de Mesa (CBTM) adota uma política de investimento técnico, baseada em critérios estratégicos, com foco no desenvolvimento de talentos e na obtenção de resultados expressivos no cenário internacional. A definição dos atletas que terão suas despesas cobertas em competições internacionais segue os seguintes critérios principais:

  • Indicação técnica – A partir de análises criteriosas da equipe técnica, são priorizados atletas que estejam alinhados com os objetivos esportivos da temporada e da Confederação, levando em conta desempenho recente e evolução individual.
  • Necessidade de pontuar e melhorar o ranking internacional – Muitos eventos são estratégicos para a obtenção de pontos importantes no ranking internacional. Nessas situações, o apoio é direcionado a atletas que têm reais possibilidades de subir no ranking.
  • Atletas foco da Confederação – A CBTM possui um grupo prioritário de atletas, com base em histórico de desempenho, idade, projeção futura e alinhamento com o planejamento técnico da entidade.
  • Atletas jovens com potencial – Parte do investimento também é direcionado a jovens talentos com grande potencial de desenvolvimento a médio e longo prazos. Essa estratégia visa renovar e fortalecer as seleções principais, mirando ciclos olímpicos e paralímpicos futuros.

Todo esse processo está inserido no planejamento estratégico da Confederação para os ciclos paralímpicos de Los Angeles 2028 e Brisbane 2032, no qual a construção de equipes competitivas passa por decisões técnicas que equilibram o presente e o futuro do tênis de mesa brasileiro.

Por fim, vale reforçar que o apoio oferecido também pode variar conforme o tipo de competição, orçamento disponível, prioridade do evento no calendário internacional e metas estabelecidas para cada atleta ou categoria. A CBTM busca, dentro de suas possibilidades, oferecer suporte justo, técnico e estratégico, com foco na excelência esportiva.

OTD: Para além do tênis de mesa paralímpico, ficamos sabendo que isso também acontece no tênis de mesa olímpico. Pelo que tomamos conhecimento, dois atletas foram com recursos próprios ao Mundial deste ano no Catar. A CBTM não tem verbas para bancar uma delegação completa em um Campeonato Mundial?

CBTM: A confederação possui orçamento limitado e, buscando o melhor aproveitamento possível, sempre procura apoiar os atletas que são foco da entidade, conforme explicado na questão 1, de acordo com estratégias internas. A definição do investimento de recursos é muito importante, ainda mais neste momento de início de ciclo, e considerando que um dos grandes objetivos estratégicos da entidade é a renovação.

OTD: Tivemos acesso ao contrato que os atletas precisam assinar para poder treinar na estrutura do tênis de mesa no CT Paralímpico em São Paulo. O item h da segunda cláusula do contrato, diz que os atletas devem “abster-se de realizar postagens em redes sociais que exponham negativamente a modalidade, seus praticantes e a CBTM”. Isso não é uma forma de censura, contrariando o artigo 5º da Constituição Federal?

CBTM: Respeitar os organismos diretivos do esporte, além de combater energicamente todos os atos que possam desmoralizar, desacreditar ou comprometer a imagem do Tênis de Mesa, é um compromisso a ser assumido por todos os contribuintes da modalidade, incluindo os atletas, nos termos do artigo 11, inciso II do Código de Ética vigente.

Ou seja, isto vale tanto por parte deles em relação à confederação, como por parte da confederação em relação a eles. É uma conduta multilateral, que envolve todos os contribuintes da modalidade, conforme citado.

OTD: Por que o Clube Nova Era de Tênis de Mesa de Bauru, onde treinam alguns dos atletas que assinaram a carta enviada ao MEsp recebeu um ofício exigindo a devolução de bens de um Comodato firmado em 2021 no dia da publicação da primeira reportagem sobre o caso no portal UOL?

Tal informação não tem nenhuma relação com a publicação da reportagem. Nenhum atleta paralímpico que compõe a seleção brasileira permanente possui vínculo com a referida entidade. A decisão em retomar a guarda dos materiais está ligada ao baixo número de atletas na associação, que já possui estrutura para atender suas demandas locais, através de chamamento público com a prefeitura. A proposta da CBTM é ajudar outras entidades que estão iniciando o processo de desenvolvimento da modalidade.

Jornalista formado pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e viciado em esportes

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