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Confiando no Guia, Fabrício Ferreira zerou sua visão para levar medalha

Atletismo

Confiando no Guia, Fabrício Ferreira zerou visão por medalha

Em live com o OTD, velocista relembra o Parapan de Lima, quando bateu o favorito nos 100 m e foi na do guia para medalhar em prova que mal treina

(Instagram/jackson.siiilva)

Confiando no Guia, Fabrício Ferreira zerou visão por medalha

A relação de um velocista com problemas de visão com seu guia no atletismo é fundamental. Quem sabe muito bem disso é o medalhista mundial e campeão parapan-americano Fabrício Ferreira.

O velocista do Mato Grosso do Sul brilhou nos Jogos Parapan-Americanos de Lima-2019, na capital peruana. Primeiro, desbancou um favorito e conquistou a medalha de ouro nos 100 metros rasos, sua especialidade. Depois, nos 400 metros, prova que não é especialista, se superou, confiou totalmente em seu guia Jackson Silva e conquistou uma inesperada e heróica medalha de bronze.

Em live com o Olimpíada Todo Dia, Fabrício Ferreira relembrou esses grandes momentos em sua carreira, falou da expectativa para Tóquio e contou a experiência de criar conteúdo na quarentena para inspirar.

No palco do teatro

O especialista nos 100 metros rasos chegou na capital peruana como candidato a medalha na categoria T-42, mas não como favorito. O posto pertencia ao norte-americano Noah Malone, de apenas 17 anos, que espantou o movimento paralímpico ao correr a distância em 10s59.

Sem se intimidar, Fabrício Ferreira ganhou confiança após conversa com seu técnico, largou muito bem, dominou a prova do início ao final, fechou os 100m em 10s97 e garantiu a medalha de ouro com recorde sul-americano, deixando o jovem americano com a prata em Lima.

“Cheguei e sabia que o favorito era o Noah. A intenção era repetir a minha marca de 10 segundos para melhorar no futuro. Na final, um dos treinadores veio até mim e disse: ‘A vida é como se fosse o palco de teatro. Você escolhe se quer estar na plateia ou no palco’. Entrei na prova e quando eu escutei o tiro, falei ‘é agora’. No final, quando vi que tinha passado na frente, foi algo inexplicável”, lembrou Fabrício Ferreira

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Diante dos meus gigantes não temerei! • Esta frase me definiu nos Jogos ParaPan-americanos de Lima 2019. O caminho pra chegar até o pódio não foi nada fácil: lesão, dores, e tantas outras coisas que só quem está nos bastidores viu, mas nada disso me abalou! Segui firme e consegui chegar até aqui. Hoje ser campeão ParaPan-americano de Lima 2019 nos 100m T12 com direito a recorde da competição e bronze nos 400m T12, com PB(melhor marca pessoal) duas vezes na semi e na final é gratificante. E a palavra que vou usar é *persistência*, mesmo com toda as dificuldade eu persisti firme no meu objetivo e foco • . Primeiramente obrigado Deus por me guiar sempre. Obrigado família pelo apoio e torcida. Obrigado a comissão técnica, @amaurywv @biodias pelo excelente trabalho. Vocês sempre acreditaram em apostaram em mim, mesmo quando eu não acreditava. Obrigado @liliane_r.nunes sem a sua descoberta e empenho para que eu continuasse no esporte talvez isso não seria possível gratidão sempre ❤️❤️. A equipe da fisio . A equipe médica. Ao CPB pela oportunidade de representar a minha nação. Obrigado a todos que torceram e mandaram energias positiva . • Gratidão 🇧🇷🙏 Essa vitória não é só minha mas é nossa é do Brasil 🇧🇷 • #advir #caixa #borafafah #timeItajaí

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Fabrício Ferreira com a medalha dos 100 metros rasos em Lima, nos Jogos Parapan-Americanos

Entregando a pouca visão que tem pela medalha

Não satisfeito, Fabrício Ferreira foi buscar mais. Ao participar dos 400 metros rasos, prova que não está acostumado a correr, conseguiu surpreender novamente e ficou com uma medalha de bronze.

O velocista revela que seu guia, Jackson Silva, foi o grande responsável pela conquista. Acostumado a correr os 100 metros sem a presença de um condutor, Fabrício Ferreira contou que confiou totalmente em Jackson, a ponto de abdicar da pouca visão que tem por conta da toxoplasmose no olho esquerdo para chegar ao bronze.

O primeiro passo foi chegar até a improvável final. Jackson Silva foi fundamental para que isso ocorresse.

Perna queimando

“Eu nem esperava essa medalha de bronze. É uma prova que eu nem treinava tanto e nem gosto de correr [risos]. Era a primeira vez que competia em uma competição grande com o guia. Mas o Jackson conversou comigo o tempo inteiro, me incentivando. No final da prova, minha perna estava queimando e doendo porque eu não treinava muito [os 400 metros] E ele não deixou eu desistir,” contou.

Com a classificação garantida para a grande final em Lima, Fabrício Ferreira se animou com o fato de conquistar duas medalhas no Parapan e foi com tudo. Na verdade, entregou tudo. Foi nesse momento em que o sul-matogrossense confiou totalmente em Jackson Silva.

“A minha visão ja é baixa. Mas coloquei um óculos escuro para não tentar enxergar ou olhar pro chão. Eu tenho essa mania de tentar enxergar um pouquinho a risca do chão. Aí eu confiei no Jackson. Eu fui gritando de sofrimento nos último metros. Quando eu passei, foi um alívio,” disse o atleta, que acabou desmaiando após o fim e ficando bem depois de alguns minutos.

Nos 400 metros rasos, prova que não é sua especialidade, Fabrício Ferreira levou um inesperado bronze confiando totalmente em seu guia, Jackson Silva

Fabrício Ferreira e Jackson Silva com a medalha de bronze em Lima nos 400 metros rasos. (Instagram/jackson.siiilva)

Fechando o ano com chave de bronze

Para completar o grande ano de 2019, Fabrício Ferreira buscou outro bronze, dessa vez nos 100 metros rasos do Mundial de Dubai, em novembro.

“Foi uma corrida de recuperação. Graças a Deus, consegui a medalha de bronze. Fiquei hiper feliz. No meu segundo do Mundial, consegui levar a medalha pra casa,” lembrou.

Fabrício Ferreira mostra medalha de bronze no Mundial de 2019 na live com o OTD (reprodução)

Produtor de conteúdo

Veloz nas pistas, Fabrício Ferreira também tem se mostrado rápido na criação de conteúdo nas redes sociais durante essa quarentena. O atleta revela, entretanto, que a decisão de entrar nesse mundo não foi para se divertir, mas sim para inspirar.

“Durante a quarentena toda eu fiz produção de vídeo. Antes eu só postava fotos. Mas vi que muitos atletas estavam desmotivados com a situação. Não sabíamos se ia ou não ter Jogos. Aí eu vi um momento pra gravar vídeos que motivem a galera. O resultado foi bacana e eu continuei, ” contou o integrante do Time Naurú.

E quem o inspira?

Treinando em Santa Catarina desde o início que a pandemia atingiu o esporte paralímpico brasileiro e inspirando outros atletas, Fabrício Ferreira finalizou o papo revelando quem o inspira na vida e na busca pela inédita medalha olímpica em Tóquio em 2021.

“A minha inspiração é a minha mãe. Todos os dias que eu acordo e não estou 100%, eu quero realizar o meu sonho [ter uma medalha paralímpica] para realizar o sonho dela, que é o de ter uma casa própria. Todas as vezes que eu não acordo bem, eu lembro que ela levantava todos os dias pra cortar cana às 5 horas da manhã, pra trabalhar no hospital, fazer dária… Vou lutar por ela. Eu realizando os meus sonhos conseguirei ajudar ela também”

Confira a live com Fabrício Ferreira na Íntegra

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