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Atletismo

De monstro à deusa: a jornada de aceitação de Raíssa Machado

Raíssa tem má formação congênita e foi no esporte que ela se encontrou. Hoje ela é campeã pan-americana e recordista das Américas

Raíssa Machado - Paratleta - Lançamento de dardo - Aceitação - Preconceito
Raíssa foi líder do ranking mundial em 2019 (Foto: Reprodução/Instagram)

“Mulher, negra, do cabelo cacheado, umbandista e que tem orgulho de ser o que é”. Essa é Raíssa Machado: paratleta de lançamento de dardo, nascida na Bahia, recordista das Américas e líder do ranking mundial em 2019. Hoje, ela se olha no espelho e vê uma atleta estabelecida e uma mulher maravilhosa, livre de preconceito. Mas nem sempre foi assim.

Raíssa tem má formação congênita e com um ano de idade deixou Ibipeba, Bahia, para morar em Uberaba, Minas Gerais, onde realizou sua primeira cirurgia. A companheira? Sua mãe, Ildonete, que teve um papel fundamental na vida da filha.

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A infância, porém, não foi nada fácil. Com cerca de oito anos, percebeu que era diferente das outras crianças ao ver que todos andavam menos ela, o que passou a incomodá-la. Na escola, a pequena Raíssa sofreu com o bullying e o preconceito e teve que lidar com apelidos como “aleijada” dados pelos seus colegas na época. Ficava num canto sozinha e se fechava, mesmo quando algumas meninas tentavam se aproximar. 

“Não gosto de falar sobre isso, porque ainda dói. É um bullying, é um preconceito e às vezes ainda dá aquela ferida. Desde pequena olhava no espelho e me achava muito estranha. Negra, cabelo cacheado, com os pés tortos… Então aquilo me incomodava e eu não achava que eu fazia parte desse mundo. Eu não me encaixava, sabe?”, contou Raíssa Machado em entrevista exclusiva ao Olimpíada Todo Dia. 

Conforme ela ia crescendo, os desafios cresciam junto. Mas muito disso estava na cabeça dela própria, que tinha dificuldade para expulsar a rejeição e o preconceito que ela tinha sobre si mesma. Na época em que começaram os “namoradinhos”, Raíssa achava que ninguém ia se interessar por ela e que nunca teria um namorado. E achava que nunca seria igual às outras meninas, “com cabelo liso, brancas, toda arrumadinha”

“Eu mesma tinha um preconceito comigo. Por que eu tenho as pernas tortas? Por que eu tenho que estar em uma cadeira de rodas? Antes a gente não tinha essas cadeiras de rodas bonitinhas, que se adequam ao nosso corpo como têm hoje. Eram aquelas cadeira de hospital, grandes. Eu me arrastava no chão e tive problemas por isso, porque meus pés eram muito sensíveis, abriam e entrava terra, criava bolha… Ficava meses sem me olhar no espelho. Me achava um monstro!”

O começo da mudança 

A vida da pequena Raíssa começou a tomar novos rumos quando ela tinha 11 anos. E mal sabia ela que esse momento definiria boa parte de seu futuro. 

Por incrível que pareça, ela não gostava de praticar esporte. Queria mesmo era ser modelo. O destino, porém, fez outros planos e a empurrou de volta para o esporte. Sua professora de Educação Física na época perguntou o que ela gostava de fazer. E a resposta foi: dançar. Incentivada pela mãe, começou a fazer curso de ginástica e de balé no Centro Municipal de Educação Avançada (Cemea) e, ali, achou um pouco daquilo que tanto procurava: ela mesma.

“Eu me inspirei logo na Daiane dos Santos. Queria ser ela! Eu não via muito esporte paralímpico na televisão, mas via muito olímpico. Cheguei a pedir para minha mãe cortar minhas pernas, colocar uma prótese para eu poder ser uma Daiane dos Santos. Queria muito, mas minha mãe não deixou. E eu continuei fazendo ginástica, porque era um meio de eu me encontrar, de tentar saber quem eu era”, explicou. 

Incentivo

Se Raíssa não acreditava em si mesma, tinha quem acreditasse. E incentivo não faltou. Seu treinador da época insistia em dizer que ela nasceu para ser atleta. E ela falava que não queria, mas foi vencida pela pressão. “Fui fazer um teste na Adefu (Associação dos Deficientes Físicos de Uberaba) e passei. E logo peguei o dardo. Mas não era aquilo que eu queria. Eu queria continuar dançando, não queria sair daquele meu mundo, em que eu era abraçada por todos, até por ser a única cadeirante. E quando eu cheguei na Adefu, eu vi muitos deficientes e fiquei mais desorientada ainda”.

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Mais uma vez, a pressão e a crença de fora venceram. Muito a contragosto, Raíssa começou a treinar lançamento de dardo, mas “sem querer de fato treinar”, como ela mesmo diz. Foi para algumas competições e sua vida mudou novamente, quando um olheiro do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) a viu em 2013 e ela recebeu a primeira convocação. Mas foi apenas dois anos depois, que Raíssa começou o processo de se apaixonar de vez pelo esporte.

Em 2015, levou o bronze nos Jogos Pan-Americanos de Toronto e foi ao Campeonato Mundial de Atletismo em Doha, de onde voltou para casa com a medalha de prata. A empolgação das conquistas fez com que Raíssa trabalhasse duro para participar das Paralimpíadas do Rio 2016. E conseguiu. Mas não foi exatamente como ela gostaria.

Raíssa Machado - Paratleta - Lançamento de dardo - Aceitação - Preconceito
Raíssa exibe a prata conquistada no Mundial no Catar (Foto:Daniel Zappe/MPIX/CPB)

O ponto de virada 

Jogos Paralímpicos de 2016. Rio de Janeiro. Aos 20 anos, Raíssa realizava um sonho. Mas o sonho virou pesadelo: ela não conquistou uma medalha. “Aquele momento foi muito duro para mim. Saí de lá chorando que nem uma doida”. 

O resultado teve grande impacto. Ela quase entrou em depressão e por pouco não desistiu do lançamento de dardo. “Eu estava na escuridão e não sabia como sair dela. Chutei o balde quando voltei para casa, falei que não queria mais, raspei minha cabeça… E aí foi todo um processo, porque eu olhava no espelho e não me achava mais. Não sabia quem era a Raíssa. Até então eu achava que me aceitava, mas na verdade eu nunca me aceitei”.

Mas algo lhe dizia que a Raíssa Machado ainda tinha muito o que realizar no esporte. E se na época o momento foi para lá de difícil, hoje, ela entende o motivo pelo qual precisou passar por tudo isso. 

“Por mais que eu fale que vou desistir, meu coração sempre fala o contrário. Eu lembro que quando voltei a treinar, eu não sabia mais como fazer o lançamento do dardo. Tive que aprender de novo. Quando tudo aconteceu, eu tive que procurar um culpado e eu me culpei e culpei o dardo. Naquele momento o meu corpo estava rejeitando o dardo. Eu não queria mais aquilo. Mas uma força maior veio e falou que eu ia conseguir, que eu ia chegar no meu objetivo. É muito triste você ficar anos na seleção e do nada sair. Mas não foi do nada. Eu é que não dei valor. Deus coloca alguns obstáculos na nossa vida para a gente dar valor para aquilo que conquistamos. Eu precisava cair para saber o que eu queria, para saber que aquilo era o que eu realmente amava”.

Nasce uma nova Raíssa

Pouco tempo depois, ela recebeu o convite do CPB para morar em São Paulo e treinar no Centro de Treinamentos Paralímpico da cidade. E não pensou duas vez. Nascia ali uma nova Raíssa. “Eu precisava sair de Uberaba, respirar novos ares. Eu precisava aprender com a vida e isso só ia acontecer se eu fosse para São Paulo”, explicou.

O começo da mudança, porém, não foi fácil. Pelo contrário. “Eu achava que em São Paulo as pessoas iam me aceitar, tinham menos preconceto, uma mente mais aberta. Mas na verdade, a minha mente é que estava fechada. Eu não saía na rua, achava que as pessoas estavam sempre olhando para minhas pernas. Eu me escondia. Mas foi aí que eu comecei o processo de aceitação de quem eu sou. Ninguém é normal. Ninguém é perfeito. Todo mundo tem um defeito, mas nós, deficientes, temos um defeito que mostra. Já pensei em fazer cirurgia para arrumar meus pés, mas não. Eu nasci assim e vou morrer assim. Eu tenho que me aceitar do jeito que eu sou”.

Preconceito e empoderamento

“Quantas vezes já não me falaram: ‘nossa, você é tão linda, mas está em uma cadeira de rodas’? Isso machuca muito a gente. Mas no fundo, acho que é tudo falta de informação. Ainda tem preconceito, mas nas pessoas que não sabem o que ser um deficiente físico. Eu passei por isso na época em que estava namorando. Tive que provar para minha ex-sogra que eu era independente e que o filho dela não ia precisar me trocar, ou dar banho, como ela achava que era. Eu fui lá, limpei a casa dela, lavei a louça, fiz tudo e mostrei para ela que eu sou capaz. Então as pessoas tem esse preconceito por achar que um cadeirante é inválido, mas não é”.

“Até a família da gente tem um certo preconceito… A minha teve no começo, de falar que eu ia precisar deles, que eles iam ter que cuidar de mim pelo resto da vida. E não, eu quis mostrar que não é assim. Eu tive uma força de vontade para mostrar que eu ia ser diferente e que não ia depender de ninguém”, completou. 

Inspiração

Hoje, muito mais dona de si, Raíssa achou uma função além do lançamento de dardo e é a de justamente combater o preconceito, levando informação para quem talvez não tenha. Inclusive em relação ao lançamento de dardo.

“Por se uma atleta, uma pessoa pública, em sempre tentei dar uma maior visibilidade para o lançamento de dardo, que é o meu esporte. O atletismo já tem uma visibilidade, mas para pista. O campo, ninguém sabe o que está acontecendo ali na hora da prova. E eu quero dar visibilidade para isso para trazer mais pessoas para gente. A gente é capaz de vender, de conquistar. E hoje, por ser uma figura pública, eu vou nos lugares e exijo uma rampa, exijo que não tenha buracos, porque é ruim para mim e é ruim para os outros. Então as informações hoje estão abrindo a cabeça das pessoas, que ainda precisa abrir muito mais”.

Além de levar informação, Raíssa também leva inspiração. E foi no Instagram que ela achou um jeito perfeito de fazer isso, começando por um tema que ela tem toda propriedade para falar: transição capilar.

A última vez que ela alisou o cabelo foi nas Paralimpíadas do Rio. “Eu estava me sentindo feia, horrorosa, mas eu tinha consciência de que eu precisava passar por isso. Lógico que eu ligava muito para a opinião dos outros e na verdade só a nossa opinião que importa”, relatou.

Raíssa Machado - Paratleta - Lançamento de dardo - Aceitação - Preconceito
Raíssa quando ainda tinha cabelo liso (Foto: Reprodução/Facebook)

A aceitação e o recado final

“E aí comecei a me dedicar mais no Instagram e percebi que era aquilo que eu queria mesmo, porque eu pude ajudar muita gente que estava passando por transição. E hoje eu faço parte desse grupo de empoderamento. Eu gosto de passar energia positiva para as pessoas e às vezes um simples bom dia pode alegrar alguém. É muito gratificante poder ajudar as pessoas e tentar diminuir o preconceito. E é mais gratificante ainda, porque eu estou conseguindo levar o esporte também, o lançamento de dardo. Ele não se perdeu ao longo do caminho. Às vezes a gente quer mostrar tanto, que acaba perdendo alguma coisa. E comigo não, o esporte está sempre aqui, lado a lado comigo. O dardo faz parte de mim”, contou Raíssa, que hoje já tem mais de 90 mil seguidores.

“As redes sociais muitas vezes mentem, mas eu levo a minha verdade e é isso que importa. Eu não sou perfeita. Eu sou a Raíssa e quero mostrar que eu sou. Acho que é isso que ajuda as outras pessoas. E é tão bom quando você recebe uma mensagem de alguém falando: ‘você me inspira’. E isso está me levando para um lugar que eu nunca achei que ia conquistar, que é o mundo”, completou.

“A gente sempre vai ter uma pergunta, mas nem sempre vai ter as respostas. Elas vêm com o tempo e com os obstáculos da vida, as quedas que você leva, que estão aqui para ensinar a gente. E eu apanhei muito para aprender e para ser quem eu sou hoje, porque eu era muito arrogante, muito grossa. Hoje eu sou muito mais flexível, eu paro para ouvir, peço desculpa”.

Essa jornada se reflete também no espelho. Porque se antes Raíssa tinha preconceito com si própria e se olhava e via um monstro, hoje ela vê uma deusa

Recorde e liderança

“A Raíssa é uma mulher negra, do cabelo cacheado, maravilhosa, umbandista, que tem orgulho de ser o que é. Eu sou muito forte e às vezes eu me acho um homão. Mas eu logo paro e penso que não, que sou linda assim. E eu vejo várias outras atletas que me inspiram, que são fortes que nem eu, como a Mayra (Aguiar) do judô, que é forte e é muito linda! E eu me acho muito gostosa. As pessoas me chamam de deusa e eu me acho isso mesmo! Hoje eu sou a deusa! Hoje eu sou feliz. Se eu tivesse que morrer hoje, eu morreria feliz. Pela mensagem que eu consegui passar, que existe o campo, o lançamento de dardo, e por todo mundo que eu pude ajudar de alguma forma, lutando contra o preconceito”. 

E Raíssa não para por aí. Depois do ouro no Pan de Lima no ano passado e do bronze no Mundial, do recorde das Américas e de assumir a liderança do ranking da classe F56 do lançamento de dardo, o próximo objetivo é a Paralimpíada de Tóquio, em 2021. Ela ainda não tem o índice para participar, mas vai continuar trabalhando duro para conquistá-lo. 

E enquanto isso não acontece, a baiana arretada continua inspirando pessoas por aí e lutando contra o preconceito. Por isso, você, menina, deficiente ou não, branca ou negra, do cabelo liso ou cacheado, e que não aceita ser quem é, Raíssa tem uma mensagem para você:

“Você é guerreira só de estar aqui. Você pode olhar no espelho e não gostar do que vê, mas pode ter certeza que lá na frente você vai se achar linda. A gente não deve ver nossos defeitos e sim nossas qualidades. A gente tem que ter amor próprio. Lute contra os seus medos, que são muitos, e se sinta perfeita. Independente do que outros falarem, se aceite do jeito que você é. Aceitação em primeiro lugar. Se a gente não se achar linda, quem vai achar?” 

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