Entre títulos, vitórias históricas e audiência em alta, o futebol feminino brasileiro viveu um ano de crescimento esportivo e projeção internacional, mas também expôs, como nunca, fragilidades estruturais e a falta de convicção por parte dos clubes.
O ano de 2025 encerra como um dos mais emblemáticos da modalidade. Dentro de campo, o país colecionou conquistas importantes, vitórias simbólicas contra potências mundiais e uma presença cada vez mais sólida no cenário internacional. Fora dele, porém, a temporada também revelou problemas antigos que seguem sem solução: estruturas precárias, projetos interrompidos abruptamente e clubes que ainda tratam a modalidade como obrigação, não como convicção.
O balanço do ano é positivo, mas está longe de ser confortável.
Seleção Brasileira: vitórias emblemáticas e posicionamento global
O grande destaque da Seleção Brasileira em 2025 foi a conquista da Copa América Feminina, que coroou a equipe com o nono título continental ao superar a Colômbia nos pênaltis após um empate emocionante por 4×4 na final.
Além disso, o Brasil consolidou-se como uma seleção em ascensão diante de adversários de alto nível. Em amistosos com forte projeção internacional, a Canarinho venceu a Inglaterra (atual bicampeã europeia) por 2×1 e Itália por 1×0, em confrontos que reafirmaram a competitividade brasileira fora do continente.
O time também bateu o Japão por 3×1 e 2×1 em partidas preparatórias, conquistou uma vitória histórica contra os Estados Unidos, na casa delas, por 2×1 e finalizou o ano com um placar de 5×0 contra as portuguesas. Essas vitórias colocam o Brasil como um dos principais candidatos a brigar por posições de destaque no cenário mundial.
O desempenho consistente ao longo do ano resultou na melhor colocação recente no ranking da FIFA, alcançando o 6º lugar, um reflexo da força e regularidade da equipe comandada por Arthur Elias.
Clubes: hegemonia nacional e público crescente nos estádios e nas telas
No futebol nacional, o Corinthians manteve sua hegemonia no Brasileirão Feminino Série A1, conquistando o título em mais uma temporada de alto nível, além de saírem vitoriosas em mais uma Libertadores. A intensidade das partidas e a competitividade das principais equipes continuaram a atrair atenção crescente.

Os números de público e audiência confirmam esse movimento de fortalecimento. A final do Brasileirão Feminino registrou pico de quase 230 mil telespectadores na TV Brasil e na Rede Nacional de Comunicação Pública (RNCP), com crescimento de audiência de até 41% em relação à temporada anterior. Além disso, dados de pesquisas apontam que o Brasileirão Feminino Série A1 já reúne cerca de 58 milhões de fãs no Brasil, um crescimento de 57% nos últimos quatro anos, com as mulheres representando a maioria dos torcedores.
Nos estádios, o ano também registrou recordes: a semifinal entre Cruzeiro e Palmeiras levou mais de 13 mil torcedores à Arena Independência, maior público de 2025 em jogos femininos no país. Esse aumento no consumo indica não apenas curiosidade pontual, mas um público crescente que acompanha e valoriza o futebol feminino tanto na TV quanto presencialmente.
Transferências: brasileiras no radar internacional
O mercado de transferências também alcançou novos patamares em 2025. A maior negociação da temporada foi a da atacante Amanda Gutierres, vendida pelo Palmeiras para o Boston Legacy, dos Estados Unidos, em um dos maiores valores já registrados no futebol feminino brasileiro ($1,1 milhão de dólares, aproximadamente 6 milhões de reais), tendência que se repete com diferentes jogadoras negociadas para clubes das ligas norte-americanas e europeias.

Outro movimento que chamou a atenção foi a saída da zagueira Isa Haas, do Cruzeiro, negociada com o América do México por um dos maiores valores da história do futebol feminino do país (R$ 3,5 milhões), representando um salto nas transações internacionais.
No Corinthians, a zagueira Mariza — eleita melhor defensora do Brasileirão e do Paulista em 2025 — se despediu do clube após uma trajetória de títulos e vai seguir sua carreira também no futebol mexicano, assinando contrato com o Tigres e ampliando o protagonismo das defensoras brasileiras no exterior.
Essas transferências refletem uma tendência clara: as atletas brasileiras seguem sendo alvo de grandes mercados onde ligas mais estruturadas e financeiramente atraentes continuam a atrair talentos do Brasil.
Calendário 2026: mais jogos, mais clubes e um teste de maturidade
O encerramento de 2025 também foi marcado por um movimento importante fora das quatro linhas: a divulgação, pela CBF, do calendário do futebol feminino para 2026, considerado o mais robusto da história da modalidade no país. A principal mudança é a ampliação da Série A1, que passará a contar com 18 clubes, além da manutenção da Copa do Brasil Feminina, que retorna definitivamente ao calendário após anos de ausência.
Na prática, o novo formato aumenta o número de jogos ao longo da temporada e reduz períodos de inatividade, uma das principais queixas das atletas. A distribuição das competições também busca maior alinhamento com o calendário internacional, algo fundamental em um cenário em que cada vez mais jogadoras brasileiras atuam fora do país e convivem com convocações frequentes da Seleção.

Outro ponto relevante é a inclusão de medidas de apoio às atletas mães e lactantes, além do fortalecimento das categorias de base, dentro de um pacote que tenta dar mais previsibilidade aos clubes. O calendário de 2026, portanto, não representa apenas uma mudança operacional, mas um teste de maturidade para o futebol feminino brasileiro, que precisará mostrar capacidade de sustentar uma temporada mais longa e exigente.
O desafio, no entanto, está na execução. Para clubes com menor investimento, disputar mais jogos exige estrutura, elenco mais profundo e planejamento financeiro — fatores que ainda não são realidade em todo o país.
Desafios estruturais: crescimento expõe desigualdades
Se 2025 foi um ano de expansão esportiva, também foi o período em que as fragilidades estruturais ficaram mais evidentes. E muitas delas passam por um ponto central: a falta de convicção de parte dos clubes em relação ao futebol feminino.
A regra da Conmebol, que obriga clubes a manterem equipes femininas para disputar competições continentais masculinas, foi fundamental para impulsionar a criação de times. Mas o ano deixou claro que cumprir exigência não significa acreditar na modalidade.
O caso do Fortaleza é emblemático. Mesmo após conquistar, em campo, o acesso à elite do futebol feminino nacional, o clube optou por encerrar o departamento feminino após o rebaixamento do time masculino no maior campeonato nacional. A decisão escancarou a fragilidade do projeto e reforçou a sensação de que, para alguns clubes, o futebol feminino existe apenas enquanto é necessário para atender regulamentos.
Na outra ponta desse mesmo debate aparece o Mirassol, que garantiu vaga na Libertadores masculina e, agora, precisará montar um time feminino para cumprir as exigências da Conmebol. O caso ilustra um cenário recorrente: projetos criados às pressas, não por planejamento esportivo, mas por necessidade administrativa — o que levanta dúvidas sobre sustentabilidade e compromisso a longo prazo.
Outro episódio marcante foi a denúncia da jornalista Renata Mendonça sobre as condições do centro de treinamento do Flamengo feminino. A repercussão foi ampliada pelas declarações machistas do presidente do clube, evidenciando não apenas problemas estruturais, mas também culturais. Mesmo em uma das instituições mais ricas do país, o futebol feminino segue sendo tratado como departamento secundário.
Já no Avaí/Kindermann, as atletas anunciaram greve após ficarem mais de seis meses sem receber salários, escancarando a precarização das relações de trabalho. O episódio mostrou que, apesar do crescimento da modalidade, ainda faltam garantias básicas para quem está em campo.
A mensagem implícita é preocupante: no futebol feminino, o mérito esportivo ainda não garante continuidade. Projetos podem ser interrompidos de forma abrupta, independentemente do trabalho realizado por atletas e comissão técnica. E a regra, embora seja clara, ainda não é tão óbvia assim: os clubes precisam acreditar na modalidade e parar de encarar o futebol feminino somente como obrigação.
Futuro em disputa: crescimento exige responsabilidade
O futebol feminino brasileiro encerra 2025 maior, mais visto e mais valorizado do que em qualquer outro momento de sua história. O novo calendário para 2026, as transferências internacionais, o aumento de público e as vitórias da Seleção contra potências mundiais confirmam que o país ocupa um lugar relevante no cenário global.
No entanto, os casos de Flamengo, Fortaleza e Avaí/Kindermann deixam claro que o futuro da modalidade não será definido apenas dentro de campo. Sustentar esse crescimento exige responsabilidade, fiscalização e políticas mais firmes. Não basta ampliar competições ou aumentar o número de jogos se clubes seguem podendo encerrar projetos, atrasar salários ou oferecer estruturas inadequadas sem consequências efetivas.
O desafio para os próximos anos será transformar o avanço esportivo em solidez institucional. Isso passa por critérios mais rigorosos de licenciamento, proteção trabalhista às atletas, transparência administrativa e, sobretudo, pela compreensão de que o futebol feminino não pode continuar sendo tratado como um projeto acessório.
Se 2025 foi o ano da afirmação, 2026 e os ciclos seguintes serão decisivos para responder a uma pergunta central: o futebol feminino brasileiro vai crescer com base sólida ou seguirá avançando sobre estruturas frágeis? A resposta dependerá não só de gols e títulos, mas principalmente de escolhas fora das quatro linhas.