Siga o OTD

Esgrima

 

Alexandre Camargo revela estratégia que trouxe medalha histórica na esgrima



Terceiro brasileiro medalhista em uma etapa da Copa do Mundo, Alexandre Camargo falou ao OTD sobre estratégia adotada para o ciclo de Los Angeles-2028 que culminou com o bronze em Berna



Alexandre Camargo na Copa do Mundo de Espada em Fujairah, nos Emirados Árabes Unido (foto: Augusto Bizzi/FIE)
Copa do Mundo de Espada em Fujairah, nos Emirados Árabes Unido (foto: Augusto Bizzi/FIE)

No dia 23 de maio, Alexandre Camargo entrou para a história da esgrima brasileira. Ele foi apenas o terceiro representante do Brasil a medalhar em uma etapa da Copa do Mundo, feito inédito para a espada masculina brasileira. Em conversa com o Olimpíada Todo Dia, o esgrimista explicou o processo rumo ao pódio, valorizando a presença constante em competições internacionais, e também contou detalhes de como está sendo a repercussão do resultado histórico, em meio a muitas viagens e competições.

Da Rio-2016 à frustração de Paris-2024

Nascido em 25 de abril de 1997, Alexandre Camargo começou na esgrima por influência do pai, que havia sido um esgrimista. Ele já iniciou com Fernando Kato, uma das referências da espada no Brasil e que fundou a Academia Mestre Kato (AMK), em Curitiba. Com uma evolução muito rápida, ele disputou os Jogos Pan-Americanos de Toronto-2015, aos 18 anos e no ano seguinte foi convocado para os Jogos Olímpicos da Rio-2016.

View this post on Instagram

A post shared by Alexandre Camargo (@xandicamargo)

“Eu sempre brinco que é como se fosse ver o final do jogo, antes de começar ele”, refletiu Alexandre sobre sua estreia olímpica. “Eu estava longe de ser o atleta que eu sou hoje, mas tive sorte e competência de estar na equipe brasileira durante a convocação e ter vagas garantidas por ser país-sede”, avalia. Ele continuou como um dos principais nomes da espada masculina, mas teve uma lesão no cotovelo em 2019 e em meio à covid-19, não conseguiu ter o ranking necessário para representar o Brasil no Pré-Olímpico de Tóquio-2020. No ciclo para Paris-2024, ficou na final do Pré-Olímpico, perdendo por 15 a 14, em um toque final que gerou polêmica no mundo da esgrima.

“Me deixou muito chateado na época, até me fez repensar se realmente queria continuar (no esporte) por conta de tudo como foi. Eu tinha feito vários sacrifícios e muito esforço para chegar na Olimpíada e não deu certo”, comentou sobre aquele momento na Costa Rica. Ele ainda falou que tentou evitar até assistir aos Jogos Olímpicos, porque não queria lembrar do momento, tema que sempre voltava à tona. “Mas no fim não deu, tive que dar uma olhada. Eu sempre brinco que a esgrima é uma relação tóxica. Ela te maltrata, maltrata, mas você continua indo lá”, brincou o atleta, sempre com bom humor.

A decisão de seguir até Los Angeles-2028 veio com um custo alto

Conversando com o técnico Filippo Lombardo, Alexandre Camargo decidiu ‘continuar indo lá’ e treinar ainda mais rumo aos Jogos Los-Angeles-2028. Para isso, passou a ficar mais tempo ainda treinando na Itália, como atleta do Roma Fencing, especialmente durante a temporada do circuito mundial da Federação Internacional de Esgrima (FIE), entre novembro e julho, quando acontece o Campeonato Mundial. Neste ano, o torneio de encerramento da temporada será em Hong Kong entre os dias 22 e 29 de julho.

Dividindo o tempo entre a Itália e o Brasil, continua disputando o circuito nacional, representando o Pinheiros, além de compromissos com o Exército Brasileiro. Só neste ano, ele venceu o Torneio Nacional Cidade do Rio de Janeiro e o Cidade de Porto Alegre. Sem muito descanso após a medalha histórica em Berna, ele já disputou nesta quarta-feira o Campeonato Italiano em Roma, onde conquistou a medalha de prata, e volta para o Brasil, onde participará do Campeonato Brasileiro em Curitiba, neste sábado, dia 6. Na semana seguinte já embarca para o Peru, onde disputará o Campeonato Pan-Americano.

“O único problema é que isso traz um custo muito, muito alto”, ressalta Camargo. “Esse ano foi bem complicado. Acho que não me planejei muito bem, porque eu fiz meio um all in (expressão que significa ‘ir com tudo’), eu foquei em jogar todas as competições possíveis, só que isso me trouxe um custo muito alto que eu não esperava ter, porque contava com alguns apoios que acabaram não vindo, algumas promessas que não aconteceram. Isso me deixou um pouco em uma situação complicada, porque eu já tinha tomado decisão de jogar as competições. Só que trouxe uma coisa muito positiva no final das contas e também a certeza que a minha ideia era ótima”, ressalta o atleta que ainda não conta com patrocínio privado.

Antes da medalha na Suíça, um grande resultado na Colômbia

A viagem ao mundo de Alexandre Camargo teve uma escala importante na Colômbia em maio. No Grand Prix de Medellin, o curitibano fez uma campanha ótima na poule, perdendo apenas um jogo por 5 a 4 e conseguindo em seguida avançar à chave principal. Na etapa da Copa do Mundo em Berna, passou invicto para a chave principal e, portanto, teve um pouco mais de descanso, já que não precisou disputar a fase preliminar.

Perguntado sobre se teria feito algo diferente na competição suíça, Alexandre comentou que não precisar ter disputado essa chave preliminar foi importante porque o nível da espada internacional é muito alto, o que pode gerar confrontos muito acirrados mesmo em uma fase inicial. Além disso, ele respondeu que estava mais tranquilo, mas não jogou de forma diferente em Berna.

“Não tive uma mudança de jogo ou de pensamento. Meu técnico sempre me fala que o meu nível já está ótimo, o que eu faço em sala está ótimo e para eu ficar tranquilo que meu momento iria chegar. Então meio que foi isso, tinha chegado meu momento”, contou o paranaense, que ainda destacou uma outra mudança na prova: a presença do compatriota Nicholas Deguchi, que avançou para as oitavas de final do torneio. “Ter um parceiro que estava indo super bem criou um clima super legal. Um foi incentivando o outro e acho que isso pode ter ajudado também em conquistar a medalha”, contou Camargo.

“Podia até ter ganho a prova”

Na fase principal da Copa do Mundo, Alexandre Camargo superou quatro adversários em sequência até o pódio, incluindo um campeão olímpico e o vice-líder do ranking. “Foram confrontos bem difíceis. Mesmo assim, por estar tranquilo e confiante no que eu tenho que fazer, a gente foi encontrando os caminhos, foi entendendo as dificuldades ali, as estratégias e fomos seguindo. Uma pena que eu não consegui ir mais longe. Eu estava em um dia bom, acho que podia até ter ganho a prova”, acredita Camargo.

Tibor Andrasfi (HUN, prata), Mohamed El-Sayed (EGY, ouro), Jakub Jurka (CZE, bronze) e Alexandre Camargo (BRA, bronze)
Tibor Andrasfi (HUN, prata), Mohamed El-Sayed (EGY, ouro), Jakub Jurka (CZE, bronze) e Alexandre Camargo (BRA, bronze)

“Talvez não estivesse pronto ainda para aquela etapa, digamos assim, porque fisicamente eu estava muito desgastado, cada vitória foi muita emoção, muita tensão. E os outros estavam acostumados a estar naquela situação, a chegar naquele ponto da competição. E isso fez diferença, eu não consegui jogar o que eu jogo na semifinal. Mas é isso, é um aprendizado, é importante entender isso e seguir”, completou Alexandre, se referindo aos companheiros de pódio, todos eles medalhistas olímpicos.

Ele foi apenas o terceiro brasileiro a subir em um pódio, repetindo os feitos de Nathalie Moellhausen, na espada feminina, e Ghislain Perrier, no florete masculino. 

Repercussão positiva e desejo de ‘quero mais’

“Está sendo uma novidade boa. Eu acho que eu sempre sonha em ter essa experiência, viver isso o que eu estou vivendo. A gente fica pensando tanto no resultado, que não imagina como é o pós. É claro que quando acaba, tem a vontade de querer mais. ‘Beleza, consegui esse resultado, foi incrível, foi histórico, ótimo. Agora qual que é a próxima? Vamos lá, vamos tentar fazer de novo’. É isso que movimenta, mas quando você pára, senta e pensa no grande resultado. Eu estou bem feliz com a repercussão, as pessoas no Brasil mandando muitas mensagens, acho que isso é bem bacana, principalmente para a esgrima”, revelou o paranaense.

Além de fazer referência ao impacto que sua campanha pode ter dentro de seus colegas de espada, Alexandre também espera que seu resultado prove que a esgrima brasileira tem potencial para conseguir grandes feitos.

“Isso é muito importante para os meus companheiros de equipe, de todas as outras armas também. Reforça que é possível chegar, mesmo sendo difícil. Nós começamos no Brasil, e por mais que a gente viaje, faça treinamentos fora, é difícil. Temos alguns exemplos, como o Guilherme Toldo, que é um atleta espetacular, ainda não conseguiu a medalha, mas mesmo assim, fez muitos resultados, o Renzo Agresta que também foi um atleta excepcional e fez muita história, mas infelizmente não teve a medalha. Eu acho que eles também foram essenciais para a minha evolução, o meu caminho. Saber que teve um brasileiro que conseguiu estar brigando, então acho que é sempre bom ter mais um exemplo para as pessoas continuarem sonhando e conseguir coisas grandes”, concluiu ele.

Interessado em cinema, esporte, estudos queer e viagens. Se juntar tudo isso melhor ainda. Mestrando em Estudos Olímpicos na IOA. Estive em Tóquio 2020.

Mais em Esgrima