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Porque o Rio não vencerá o pleito olímpico para 2016

Por Alberto Murray Neto*

Não é somente o Rio de Janeiro. Nenhuma cidade do Brasil tem condições de, em curto espaço de tempo, sediar Jogos Olímpicos. Objetivamente e mesmo porque conheço profundamente as formas pelas quais os membros do Comitê Olímpico Internacional julgam cada candidatura, as razões pelas quais o Rio 2016 está fadado ao fracasso são as seguintes:

– O Brasil não tem política de base para o esporte. O Estado oferece às crianças da rede pública condições paupérrimas para o exercício da educação física, com espaços limitadíssimos e professores mal pagos. Não há, no Brasil, mentalidade olímpica e desportiva de base;

– O Comitê Olímpico Internacional ( COI ), mormente após 1984, tem a absoluta tradição de entregar a enorme responsabilidade de sediar Jogos Olímpicos à cidades que ofereçam garantias seguras de que a preparação para os jogos não sofrerão percalços. Os Jogos Olímpicos são um grande negócio e as responsabilidades jurídicas e financeiras assumidas pela cidade candidata eleita em face do COI e dos patrocinadores são enormes. Não podem haver riscos. O Brasil ainda não oferece essa segurança jurídica e financeira, vide o que se passou com o Pan-Americano, competição MUITO menor, em que além dos atrasos nas obras, até hoje questiona-se o super faturamento, o que repercutiu, posso assegurar, muito mal no exterior;

– O Rio de Janeiro e o Brasil não têm condições financeiras de construir instalações desportivas à altura do caderno de encargos do COI. Pan-Americano nem se compara à Olimpíada. As instalações, para todas as modalidades, são absolutamente diferentes e muito mais caras;

– O governo deve garantir investimentos maciços em obras de infra-estrutura viárias, linhas de metrô, renovação e ampliação das frotas de ônibus, trens urbanos, ampliação e melhoria dos aeroportos, hospitais de alto nível, hotéis para acolher o grande número de pessoas que vão aos Jogos Olímpicos. Além do Rio, nem São Paulo, nem outra cidade qualquer do Brasil possue isso. Notem que para o Pan-Americano nada disso foi feito, apesar de ter sido prometido. Agora, falta credibilidade à cidade no cenário esportivo mundial;

– Estrutura de segurança mais complexa e dispendiosa, em razão do número de pessoas presentes ao eventos e chefes de estado e de governo. A segurança pública no Rio de Janeiro e no Brasil bota medo nos estrangeiros;
– Demonstração de responsabilidade social e programas de inclusão social de longo prazo com resultados práticos já efetivamente conseguidos. Cidades com grandes desníveis sociais, historicamente, têm desvantagens;

– Demonstração de responsabilidades ambientais. Hoje o Movimento Olímpico alia esporte, cultura e meio ambiente. A Baía da Guanabara continua sendo, apesar da beleza plástica, um lugar poluído. Este é um exemplo isolado. Há vários. E muito dinheiro já foi destinado a esses propósitos de despoluição e nada ocorre;

– Garantias efetivas dos três níveis de governo de que haverá os investimentos necessários e o cronograma de investimentos e os prazos de obras serão rigorosamente cumpridos. Veja o mau exemplo que o Pan-Americano deu nesse aspecto. Sem opção, o comitê “encostou a faca na goela do governo federal” que, ao final, pagou a maior parte da conta para evitar um vexame ainda mais vultoso. Isso também deixou uma má imagem no movimento olímpico internacional;

– Histórico de estabilidade econômica no Brasil. Apesar dos avanços obtidos, a estabilidade econômica das outras cidades e seus respectivos países, não há como negar, estão muito à frente do Brasil;

– A disputa política havida na preparação dos Jogos Pan-Americano entre os governos federal, estadual e municipal deixaram má impressão para o movimento olímpico;

– A rotação de continentes nunca teve qualquer importância para o COI. Sequer consta de seus estatutos, como havia na FIFA antigamente. Essa história de levar os jogos para a América do Sul pela primeira vez não serve como apelo. O apelo é a América do Sul provar que atende todas as condições acima mencionadas e mais algumas. Vejam a Grécia, Atenas, que para os jogos de 1996 tinha o grande apelo de, como berço dos Jogos Olímpicos, querer sediar a celebração dos 100 anos da era olímpica moderna em seu país. Esse apelo é muito mais significativo do que “a América do Sul nunca sediou uma Olimpíada”. E nem isso funcionou para Atenas, cuja capacidade demonstrada de realizar os jogos não suplantou Atlanta, terra da Coca-Cola.

Enquanto o Brasil não desenvolver uma mentalidade olímpica, pensando a longo prazo, os Jogos Olímpicos ficarão longe daqui. Vamos investir o dinheiro do povo no esporte de base, educacional para, daqui a muito tempo, podermos ter a honra sublime de sediar Jogos Olímpicos.

*Alberto Murray Neto é advogado, sócio do escritório Paulo Roberto Murray e membro do Comitê Olímpico Brasileiro desde 1996

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