Em um ano em que o Brasil produziu seis campeões mundiais (Yago Dora no surfe, Caio Bonfim na marcha atlética, Rebeca Lima no boxe, Henrique Marques e Maria Clara Machado no taekwondo e Rayssa Leal no skate), não é muito fácil definir qual foi a conquista mais importante do ano para o esporte nacional. Mas o fato do ouro de Caio Bonfim nos 20 km do Mundial de atletismo ter sido acompanhada da prata nos 25 km torna o feito do atleta de Sobradinho mais especial. Ainda mais pelo fato dos dois pódios terem sido conquistados depois de uma provocação feita pelo medalhista olímpico de Paris-2024, que precisou convencer a Confederação Brasileira de Atletismo (CBAT) e o Comitê Olímpico do Brasil (COB) a fazer uma preparação especial para que ele pudesse competir nas duas provas.
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Eleito o atleta masculino do ano no Prêmio Brasil Olímpico, Caio Bonfim abriu os bastidores da campanha histórica que o colocou no topo do atletismo mundial. Em entrevista exclusiva ao Olimpíada Todo Dia, o marchador detalhou decisões estratégicas, dados científicos e desafios físicos enfrentados para conquistar a medalha de ouro nos 20 km e a medalha de prata nos 35 km da marcha atlética no Mundial de Atletismo disputado em casa.
A decisão de disputar 35 km e 20 km no mesmo Mundial
Um dos principais bastidores revelados na entrevista foi a escolha de competir nas duas provas, apesar da resistência inicial da Confederação Brasileira de Atletismo (CBAT). A entidade defendia que Caio focasse apenas nos 20 km, prova em que havia conquistado a medalha olímpica em Paris.
Caio, porém, avaliava que suas chances de título eram maiores nos 35 km, mesmo enfrentando recordistas mundiais.
“Nos 20 km tinha o japonês Toshikazu Yamanishi, bicampeão mundial e que bateu o recorde mundial neste ano, competindo em casa. Para ganhar dele, teria que ser o dia perfeito. Já nos 35 km, eu sentia que tinha chance real de vitória”, explicou.
Para viabilizar a decisão, Caio contou que precisou convencer o presidente da CBAT, Wlamir Campos, e assumir a responsabilidade pelo risco envolvido. Mas a entidade, em parceria com o COB, ajudou o atleta montrar a estratégia para disputar as duas provas e ofereceu toda a estrutura necessária para que a missão desse certo.
O feito ganha ainda mais relevância porque, pela primeira vez, a prova mais desgastante do programa — os 35 km — foi realizada antes dos 20 km, exigindo uma recuperação física extremamente precisa para que o atleta conseguisse competir em alto nível poucos dias depois.
Ciência, dados e recuperação extrema
A preparação para disputar 55 km de prova em uma semana contou com apoio direto do Comitê Olímpico do Brasil (COB), que escalou o fisiologista Hélvio Affonso para acompanhar de perto o trabalho junto aos treinadores João Sena e Giannetti Bonfim, pais do atleta.
Após a prova dos 35 km, Caio passou por exames imediatos que indicaram níveis altíssimos de inflamação muscular, considerados extremos até para padrões de alto rendimento. A recuperação teve monitoração dia a dia, com ajustes em alimentação, hidratação, fisioterapia, treinos leves e controle de carga.
“Na quinta-feira antes dos 20 km, os dados já estavam muito bons. No sábado de manhã, os exames mostravam que eu estava igual ao dia anterior aos 35 km. 100%”, revelou.
“Ninguém chega sozinho”
Caio fez questão de destacar que o resultado histórico é fruto de um trabalho coletivo, envolvendo treinadores, equipe médica, fisioterapia, fisiologia e suporte institucional.
“Quando você traz um ouro e uma prata em provas tão duras, mostra que o trabalho foi muito bem feito de todos. Ninguém chega sozinho”, afirmou.
Segundo ele, compartilhar esses bastidores é importante para inspirar outros atletas e mostrar que o esporte brasileiro também opera em nível de excelência científica e profissional.
Domínio de prova e leitura de ritmo
Durante a entrevista, o marchador detalhou como a leitura de prova se tornou uma das principais armas em competições de alto nível. Para ele, o domínio vem da combinação entre treinamento, dados fisiológicos e conhecimento do próprio corpo.
“Quando você sabe exatamente como está fisicamente, você monta a estratégia em cima disso. Você sabe quantos quilômetros aguenta em determinada intensidade e quando pode acelerar”, explicou.
Essa leitura ficou evidente na prova dos 20 km, em que Caio adotou uma estratégia conservadora no início, deixou rivais assumirem um ritmo elevado e cresceu na parte final.
A estratégia que definiu o ouro nos 20 km
Segundo Caio, o ritmo imposto pelo grupo da frente era insustentável para a maior parte dos atletas, especialmente considerando o percurso e as condições da prova. A decisão de reduzir o ritmo depois de ter dado uma acelarada foi calculada.
O plano funcionou. Nas últimas voltas, Caio acelerou de forma decisiva, ultrapassou adversários e cruzou a linha de chegada como campeão mundial, sem cometer faltas técnicas, fator determinante em provas de marcha atlética.
“Eu sabia que, se fosse naquele ritmo, não chegaria até o final. Preferi dar um passo atrás, manter um ritmo que me colocasse na briga por medalha e confiar no meu final. Quando parece que eu estou crescendo na prova, na verdade eles estão caindo, porque é insustentável aquele ritmo que estavam”, contou.
A motivação para seguir no auge
Aos 34 anos, medalhista olímpico em Paris 2024 e agora campeão mundial, Caio Bonfim explicou que a motivação segue intacta. Segundo ele, o combustível está na paixão pelo processo e no desejo de explorar o próprio limite.
“Eu sempre uso o discurso de ver até onde o meu talento pode ir. Cheguei no auge, então vamos prolongar esse auge. Vamos tentar fazer da próxima temporada mais um ano nesse nível”, afirmou.
Os próximos desafios de Caio Bonfim
O foco agora está no Mundial de Marcha Atlética de 2026. O evento vai acontecer em Brasília, além da sequência do ciclo olímpico rumo a Los Angeles 2028. Caio destacou a importância de respeitar períodos de descanso antes de iniciar uma nova temporada de construção.
“Trabalhamos por temporada. O corpo precisava parar, descansar, e agora é voltar e fazer tudo de novo”, explicou.
Questionado sobre até quando pretende competir em alto nível, o marchador foi direto: enquanto houver prazer, motivação e desempenho, seguirá em frente.