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Atletismo

‘A semifinal foi mais importante que a final’, diz Joaquim Cruz

Relembrando ouro olímpico de 36 anos atrás, Joaquim Cruz destaca a importância de ter quebrado a barreira de 1min43s na semifinal e fala da relação de respeito com o rival Sebastian Coe

Joaquim Cruz relembra ouro histórico 36 anos depois (arquivo)

‘A semifinal foi mais importante que a final’, diz Joaquim Cruz

Há 36 anos, exatamente às 16h51, na pista do Memorial Coliseum de Los Angeles, o brasiliense Joaquim Cruz entrou para a história do atletismo ao conquistar a medalha de ouro na prova dos 800 m rasos nos Jogos Olímpicos de Los Angeles 1984. Nesta quinta-feira (6), em live promovida pela CBAt (Confederação Brasileira de Atletismo), ele relembrou o feito.

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O jovem de 21 anos de Taguatinga venceu ninguém mais, ninguém menos do que o então recordista mundial da prova, o britânico Sebastian Coe, atual presidente da World Athletics (Federação Internacional de Atletismo), que ficou com a prata. O brasileiro estabeleceu ainda o recorde olímpico, com 1min43s00.

Joaquim Cruz entrou nos Jogos de 1984 como um grande candidato ao pódio e foi confirmando seu favoritismo ao longo deles. Durante todas as suas quatro corridas em Los Angeles, o corredor terminou sem ninguém na sua frente.

Durante a live, o brasiliense relembrou de todas elas, e destacou que a performance durante a semifinal foi a mais importante de todas, inclusive do que a própria decisão, quando foi ouro com um tempo assustador que lhe faria medalhista em muitas competições importantes nos dias de hoje.

“Na semifinal, eu fechei com o tempo de 1min43s82. No ano anterior, eu passei a temporada inteira na Europa atrás desses 1min43s. Aí eu falei assim ‘Pô, é isso que é correr 1min43s? Amanhã eu vou arrebentar!’ Esse sentimento eu senti pela primeira vez numa corrida. A semifinal foi mais importante que a final em si. O meu corpo e a minha mente aprenderam coisas novas durante a corrida,” declarou o medalhista olímpico.

Preocupações na final

Segundo Joaquim Cruz, essa quebra de barreira de tempo foi tão importante que o ajudou mais ainda a controlar as suas emoções e lhe fez conseguir dormir com mais tranquilidade na véspera da decisão, algo que não aconteceu no campeonato mundial no ano anterior. Essa, inclusive, era uma de suas duas grandes preocupações antes de disputar os 800 metros mais importantes de sua carreira.

“Depois de baixar o 1min44s, a autoconfiança foi lá em cima. Isso ajudou muito. Na prova final de Helsinque [no campeonato mundial do ano anterior, quando conquistou a medalha de bronze], eu fiquei pensando em como ia correr e passei a noite toda ‘correndo mentalmente’. Não consegui pegar no sono profundo e descansar o corpo. Em Los Angeles, eu soube controlar a ansiedade e fui pra final descansado,” contou Joaquim Cruz.

O outro ponto que preocupava o brasileiro era o rival britânico recordista mundial da prova e medalhista de ouro nos 1500 metros nos Jogos Olímpicos de Moscou-1980, Sebastian Coe.

“A primeira experiência correndo com o Sebastian Coe foi em Roma, em 1981, na Copa do Mundo de Atletismo. Pude ver ele treinando. Fiquei impressionado como ele mudava do ponto A pro ponto B. Ele tinha uma velocidade, frequência e força. Ele quando corria, parecia ter a minha altura. E ele era baixinho.”

O medalhista de ouro nos Jogos Olímpicos de Los Angeles 1984 Joaquim Cruz revelou que a semifinal dos 800 m rasos foi mais importante do que a própria final
Sebastian Coe, medalhista de prata nos Jogos Olímpicos de Los Angeles 1984

A estratégia

Na hora da decisão, Joaquim Cruz optou por correr na frente do grande rival. O brasiliense ficou preocupado em ser ultrapassado pelo adversário, o que não ocorreu.

“Eu tinha na minha mente: ‘Como eu vou correr na frente, eu não posso ser surpreendido. Se ele passar na frente, ele vai me deixar pra trás muito rápido’. Felizmente ele não sabia dessa tática [risos]. Ele ficou atrás de mim, me usando como coelho. Se você perceber na prova [relembre no vídeo abaixo], eu dava cinco passadas e olhava para a direita. Mais cinco, e olhava novamente para a direita, controlando o Sebastian Coe. Deu certo,” relembrou Joaquim Cruz.

Relação com Coe

Joaquim Cruz nutre um sentimento de respeito e admiração pelo britânico que ficou com a medalha de prata em Los Angeles. Os dois, no entanto, nunca foram amigos, embora sempre tenham se dado bem ao longo dos anos. Segundo o brasiliense, Sebastian Coe sempre o tratou com respeito, desde o primeiro contato até ser derrotado pelo brasileiro em Los Angeles há 36 anos.

“No primeira prova que corri com ele, no Mundial de Roma-1981, quando eu tinha 18 anos e ele já era recordista mundial, eu nem apareci na televisão, fiquei muito pra trás. Após a vitória, ele saiu do lugar dele e veio me cumprimentar. Ele falou algumas palavras em inglês e eu não entendi nada. Três anos depois, esperando pela cerimônia de premiação em Los Angeles, estávamos calados esperando. Eu quebrei o gelo perguntando: ‘Coe, o que você me disse em Roma aquele dia?’ E ele respondeu dizendo: ‘eu disse que você seria um grande campeão’. Eu tinha acabado de vencer o cara! Fiquei sem palavras!”

Resenha no Ceará

O medalhista de ouro finalizou dizendo a primeira grande conversa entre os dois só ocorreu muitos anos após a Olimpíada de Los Angeles, durante um meeting de atletismo em Fortaleza.

“A gente se encontrava na Europa, mas era aquele encontro de ‘Oi, tudo bem?’, nunca foi uma grande conversa. Em Fortaleza, quando fui homenageado juntamente com ele, tivemos a oportunidade de conversar por mais de cinco minutos. Ficamos acompanhando a competição trocando ideias. Mas foi uma carreira inteira sem falar mais de dois minutos. Porém, sempre com muito respeito.” finalizou Joaquim Cruz.

Sebastian Coe em evento da World Athletics no final de 2019

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