Alison Cerutti, o Mamute, encerrou a carreira como atleta, mas não pretende se afastar do esporte. Em entrevista ao Olimpíada Todo Dia, concedida a Rafael Zito, o campeão olímpico do vôlei de praia falou sobre a nova rotina após a aposentadoria, relembrou momentos marcantes da trajetória nas areias e explicou o desejo de atuar na gestão esportiva.
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Medalhista de prata em Londres-2012 ao lado de Emanuel e campeão olímpico na Rio-2016 com Bruno Schmidt, Alison se despediu das quadras em 5 de outubro de 2025, em Copacabana, palco do maior momento de sua carreira. Desde então, o capixaba tem dividido o tempo entre a família, os estudos e a busca por novos caminhos dentro do esporte.
“Na parte da manhã, eu tenho ficado bastante com os meus filhos, com a minha família. Então, a tarefa de levar para o inglês, levar para a escola, de levar para a natação, é comigo”, contou Alison. “E aí, na parte da tarde, é comigo, é onde eu estou estudando. Eu gosto muito dessa área da gestão, já estou fazendo um terceiro curso, já estou indo muito para essa área.”
Nova vida após a aposentadoria
A transição para a vida fora das competições tem sido planejada. Alison explicou que não quis parar de uma vez. Além de seguir treinando algumas vezes por semana para cuidar do corpo e da mente, o campeão olímpico tem estudado e acompanhado diferentes modalidades.
“Estou buscando conhecimento, estudando, lendo, aprendendo. Esse é o objetivo. Tenho dividido bastante isso durante seis meses e tem me ajudado muito, principalmente de não parar de uma hora para outra”, afirmou.
O interesse por gestão, segundo ele, não surgiu apenas após a aposentadoria. Alison contou que sempre gostou de pensar em projetos, estruturas, relacionamentos com patrocinadores e desenvolvimento de carreira. O próprio início da parceria com Bruno Schmidt, formada no ciclo da Rio-2016, teve esse componente: ele montou uma estrutura de treinamento em Vitória e apresentou o projeto ao parceiro.
“Eu sempre tive isso. Em toda tomada de decisão, às vezes eu tive oportunidades melhores financeiras, mas pensava: o que isso me dá no futuro? A longevidade, o trabalho”, disse. “Os patrocínios que eu tive foram parceiros, não foram nem patrocinadores, porque eu sempre gostei de criar esse relacionamento de confiança e de troca.”
Despedida em Copacabana
A última partida da carreira aconteceu em Copacabana, mesmo local em que Alison conquistou o ouro olímpico em 2016. Ele encerrou a trajetória ao lado de Renato, com medalha de bronze na etapa do Circuito Brasileiro. Para o Mamute, a escolha do Rio de Janeiro teve peso simbólico.
“Quando saiu o calendário, saiu Copacabana em outubro. Normalmente, um atleta termina a carreira em dezembro, no final da temporada. Falei: vai ser nessa etapa. Nove anos depois da conquista da medalha de ouro, no Rio de Janeiro, Copacabana, no vôlei de praia”, relembrou.
A despedida, no entanto, não foi simples. Alison contou que teve uma noite difícil antes do último jogo. Mesmo com mais de 20 anos de carreira, o peso emocional de entrar em quadra pela última vez como atleta profissional foi grande.
“Foi uma noite muito longa para mim. Por mais que eu tivesse toda a experiência de mais de 20 anos de carreira, era a minha última noite como atleta profissional”, disse. “No café da manhã, eu estava com a minha família, com os meus filhos, mas eu falava: nossa, é o último jogo.”
A partida de despedida teve um primeiro set interminável, vencido por Alison e Renato por 38 a 36. O Mamute brincou com o fato de os adversários, jovens atletas da categoria sub-21, terem insistido no saque nele durante quase todo o jogo.
“Dentro da minha cabeça, eu ficava: não tira o jogo daqui, fica aqui, porque eu quero aproveitar. Eu não quero ficar só levantando”, contou. “Até quando acabou, eu olhei para eles e falei: vocês queriam carimbar que ganharam do Alison. Foi a última chance.”
Primeira experiência fora da quadra
Poucos dias depois da aposentadoria, Alison já estava de volta ao ambiente competitivo. Ele recebeu convite da Confederação Brasileira de Voleibol para acompanhar a seleção brasileira de base no Mundial Sub-21, no México. A dupla Maria Clara e Marcela conquistou o bronze na competição.
“Eu achei que ia conseguir ficar um tempo sem voltar a Saquarema. Voltei a Saquarema três dias depois de aposentado”, contou. “Na hora que eu cheguei no quarto, eu peguei o meu uniforme como comissão técnica. Então, eu voltei para a quadra no outro dia e falei: nossa, que bacana.”
Alison explicou que a função foi de supervisão, troca de experiência e apoio à comissão técnica. Ele disse que não descarta, no futuro, fazer cursos e atuar à beira da quadra, mas reforçou que o foco principal está na gestão.
“Eu nunca digo nunca. Mas eu gosto muito da área da gestão. Só que, para você entender um pouco da área da gestão, você tem que entender um pouco de cada área”, afirmou. “Eu não descarto em nenhum momento fazer os cursos de técnico, estar um dia, se precisar, à beira de uma quadra. Mas a área da gestão me encanta muito.”
Emanuel, Bruno e os ciclos olímpicos
Na entrevista, Alison também relembrou a importância dos dois principais parceiros de sua carreira olímpica. Com Emanuel, conquistou o Mundial de 2011 e a prata em Londres-2012. Com Bruno Schmidt, venceu o Mundial de 2015 e chegou ao ouro na Rio-2016.
Sobre Emanuel, Alison falou como quem se refere a um mentor. “O Emanuel é o meu irmão mais velho”, afirmou. “Ele sempre foi muito espelho para mim. Não só como jogador, mas como ser humano, como pessoa.”
O campeão olímpico contou que Emanuel o ensinou sobre comportamento, comprometimento, adaptação e liderança. “O treino começava 8 horas. Eu chegava 7h30. Ele chegava 7h20. Eu falava: não, vou chegar 7h15. Isso vai puxando o sarrafo”, recordou.
Já sobre Bruno Schmidt, Alison destacou a habilidade natural do parceiro e a humildade necessária para reconstruir a dupla desde o classificatório no início da parceria. “O Bruno foi um dos jogadores mais habilidosos que eu vi na minha vida. Ele passava para as pessoas que era fácil defender, que era fácil sacar”, disse.
O último ponto do ouro
Um dos momentos mais emocionantes da entrevista foi a lembrança do último ponto da final olímpica da Rio-2016, contra os italianos Daniele Lupo e Paolo Nicolai. Alison explicou por que ele e Bruno não comemoraram juntos imediatamente após o ponto final.
“Nós quebramos o protocolo na história do vôlei de praia, porque normalmente os parceiros sempre comemoraram juntos o último ponto”, disse. “Os familiares do Bruno estavam no meio da quadra. Os meus familiares, que eram 20, estavam atrás da quadra.”
Depois do bloqueio que confirmou o ouro, cada um correu para sua família. O reencontro entre os dois aconteceu minutos depois, antes da entrevista ao vivo.
“Eu encontro com o Bruno 15, 20 minutos depois. Estava na hora da entrevista, ao vivo. Eu falei: não quero saber de entrevista, eu vou falar com o meu parceiro”, relembrou. “O último ponto é uma coisa viva dentro de mim. Parece que foi ontem.”
Análise do vôlei de praia brasileiro
Alison também analisou o momento atual do vôlei de praia brasileiro, especialmente no masculino. Para ele, o Brasil vive um período de transição, enquanto a modalidade passou por uma evolução internacional importante.
“Existe uma coisa que se chama entre safra. O esporte evoluiu”, afirmou. “O Brasil e os Estados Unidos dominavam. Eram escolas. Mas existe uma coisa que se chama evolução.”
Segundo Alison, o jogo masculino ficou mais físico, rápido e globalizado. Ele citou a exportação de treinadores brasileiros para universidades dos Estados Unidos e países da Europa como parte desse processo de crescimento mundial da modalidade.
“Nós estamos exportando muitos técnicos. Hoje, a gente tem mais de 40 técnicos nos Estados Unidos, nas faculdades, na Europa, implementando o vôlei brasileiro lá fora. Isso tudo faz parte da evolução”, avaliou.
O Mamute também fez um alerta sobre a necessidade de olhar para a base. “A gente tem que investir nesses meninos de 16, 18, 20 anos, olhando para o futuro”, disse.
Futuro na gestão esportiva
No fim da entrevista, Alison mostrou as medalhas olímpicas e falou sobre o significado da prata de Londres e do ouro do Rio. Para ele, as conquistas representam a realização de um sonho, mas também uma responsabilidade.
“Isso aqui significa a realização de um sonho e a conclusão de uma grande responsabilidade”, afirmou. “Realizei um sonho, zerei o game, as letrinhas subiram. Mas ganhei junto com isso uma grande responsabilidade.”
É essa responsabilidade que Alison quer levar para a nova fase da carreira. E ele não pensa apenas no vôlei de praia.
“Esse é o meu objetivo também como gestor: tentar melhorar o meu esporte e os outros esportes”, disse. “As pessoas me perguntam: você quer ser gestor no vôlei de praia? Eu quero ser gestor na modalidade olímpica. Eu adoro esporte.”