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João Lucas Reis e Mika Brunold disputam final histórica para o tênis masculino



João Lucas Reis e Mika Brunold, únicos tenistas gays a se assumirem em atividade, se enfrentam na final do Challenger de Tulln, na Áustria.



João Lucas Reis e Mika Brunold no Challenger de Tulln (Fotos: NÖ Open/Manfred Binder)
João Lucas Reis e Mika Brunold no Challenger de Tulln (Fotos: NÖ Open/Manfred Binder)

Nas últimas décadas, pouco a pouco, a homofobia tem sido deixada de lado no esporte, ainda que a passos lentos.  Por muito tempo, os bastidores do tênis conviveram com a incômoda constatação de que nenhum atleta abertamente gay havia competido pelo circuito masculino do tênis. O brasileiro João Lucas Reis foi o primeiro a quebrar essa barreira, em dezembro de 2024, seguido apenas pelo suíço Mika Brunold no final de 2025. E o destino do tênis quis que os dois se encontrassem na final do Challenger de Tulln, na Áustria, neste domingo.

O encontro será inédito no circuito e acontece a partir das 7h30, horário de Brasília. A transmissão fica a cargo do site Challenger TV.

Como João Lucas Reis e Mika Brunold chegam à final de Tulln?

João Lucas Reis tem feito uma campanha impressionante no torneio, vencendo todas as quatro partidas sem perder sets. No caminho, derrotou o compatriota Thiago Monteiro e três cabeças de chave, incluindo o principal favorito ao título torneio, o eslovaco Alex Molcan, atual 88º do mundo.

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Já Mika Brunold também está tendo uma ótima campanha e mais longa. Para o suíço, foram seis vitórias, com apenas um set perdido, já que ele teve que passar pelo quali. No caminho, derrotou dois cabeças de chave, incluindo o brasileiro Gustavo Heide, que, apesar da condição de cabeça de chave, perdeu por 6-2 e 6-1.

Atual 282º do mundo, João Lucas Reis já subirá ao menos 62 posições, indo para a 219ª ou 220ª posição no próximo ranking da Associação dos Profissionais de Tênis (ATP). O pernambucano de 26 anos voltará ao top 200 em caso de título, escalando para no mínimo a 185ª posição, a depender de outros resultados. O melhor ranking da carreira atualmente é o 187º, alcançado em novembro de 2025.

Aos 21 anos, Mika Brunold é o atual 410º do mundo e já garante um salto de 83 posições. Se vencer, dará novo pulo, entrando para o top 260, o que lhe garantirá a melhor posição da carreira, que atualmente é o 289º posto.

João Lucas Reis foi o primeiro tenista a falar da homossexualidade durante a carreira

João Lucas Reis fez história mesmo sem perceber. Em 7 de dezembro de 2024, ele postou uma série de fotos com seu namorado, Guilherme Sampaio Ricardo, o parabenizando pelo seu aniversário. A simples mensagem de afeto provocou uma onda pelo mundo do esporte. Afinal, ele se tornou o primeiro jogador em atividade no tênis masculino a anunciar sua orientação sexual que não seja heteronormativa.

“Eu nem pensei nisso, eu só quis postar uma foto com ele”, disse ao The Athletic poucos dias depois. “Estou muito feliz que as pessoas me respeitam, e talvez até me admirem”, disse. Ao Globo, ele também celebrou o apoio que recebeu. “Eu recebi muitas mensagens de pessoas falando que se identificavam comigo, que queriam me ver no topo do tênis. E eu achei isso muito motivador”. 

Reação foi muito positiva, segundo o jogador

Apesar de ter falado abertamente com sua família e amigos aos 19 anos, o tenista de Recife confessou à CNN que ainda sentia um receio em se abrir no circuito. “Com meus amigos, meus amigos do tênis que estavam comigo nos treinos e vestiários, todos os dias nós confidenciamos sobre problemas”, disse Reis da Silva. “Se algo mudasse, eu me sentiria sozinho porque não há ninguém lá. Se der errado, o que posso fazer? Só tenho que aceitar que as pessoas não me aceitam. Eu tinha medo disso”. Curiosamente, os melhores resultados de sua carreira vieram em seguida. 

Ainda naquele mês, ele venceu um torneio que lhe deu vaga no quali do ATP 500 do Rio. Em junho de 2025, ele conquistou seu primeiro título de Challenger, em Santa Fé, na Argentina. Neste domingo, ele disputa sua sétima final, acumulando outros cinco vices. Em 2025, ele disputou o quali do US Open, e neste ano participou da fase classificatória dos outros três Grand Slams, conseguindo sua primeira vitória em Roland Garros.

Além disso, ele disse à revista Clay que “a atmosfera é de total respeito. É uma das melhores coisas que me aconteceu. Há algum tempo, eu não queria falar com ninguém sobre isso, mas quando eu comecei a falar, me senti mais calmo”. Na mesma revista, ele ainda admitiu que provavelmente não era o único tenista gay do circuito, e que “seria ótimo” se a sua franqueza com o assunto ajudasse outros tenistas.

Mika Brunold seguiu os passos do brasileiro ano passado

Quase um ano depois de João Lucas, o suíço Mika Brunold também escolheu se abrir publicamente. Antes dos dois, apenas os tenistas norte-americanos Brian Vahaly e Bobby Blair falaram abertamente sobre sua vida amorosa, mas apenas após encerrarem a carreira. Em um post de Instagram, o suíço disse: “ser gay não significa apenas se sentir atraído por pessoas do mesmo gênero. Também significa lidar com coisas que a maioria das pessoas nunca precisa pensar. O medo de não ser aceito, a pressão para ficar em silêncio, a sensação de ser diferente. Mas eu cresci. E tenho orgulho de quem sou hoje”. 

E, assim como aconteceu com João Lucas Reis, seus melhores resultados vieram em sequência. Independentemente do resultado desta semana, esta é a melhor campanha de Mika Brunold no circuito. E quem sabe, esta final entre dois tenistas abertamente gays mostre ao universo do tênis masculino que se assumir não é um risco, mas uma possibilidade de se sentir mais confortável consigo mesmo e obter melhores resultados esportivos. Independentemente de quem ganhar a final, o tênis sairá vencedor deste domingo em Tulln.

Interessado em cinema, esporte, estudos queer e viagens. Se juntar tudo isso melhor ainda. Mestrando em Estudos Olímpicos na IOA. Estive em Tóquio 2020.

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