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Família e sucesso: como bocha mudou a vida de Eliseu dos Santos

Bicampeão paralímpico, Eliseu dos Santos conheceu a esposa por causa da bocha e construiu uma família enquanto somava conquistas no esporte

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Eliseu dos Santos conheceu sua esposa em um treino de bocha (Daniel Zappe/EXEMPLUS/CPB)

Com três participações em paralimpíadas e cinco medalhas conquistadas, Eliseu dos Santos tem um vasto currículo na bocha paralímpica. Além de servir como carreira, o esporte também foi o responsável por dar ao atleta a bela família que tem hoje.

“Eu conheci minha esposa Nadia num treino de bocha. O primo dela fazia parte da nossa equipe e um dia ela foi ver nosso treino. Aí ela começou a acompanhar direto e já estamos juntos há 12 anos”, contou o jogador em live no instagram do Olimpíada Todo Dia.

Com a esposa, Eliseu tem dois filhos, Nicolas (5 anos) e Natasha (2 anos). O nascimento do primogênito, inclusive, aconteceu num momento especial da carreira do jogador. Em 2012, ele estava com a seleção brasileira em Londres para a disputa de sua segunda paralimpíada quando o bebê nasceu. “Foi no dia da abertura, dia 29 de agosto, para eu poder competir mais tranquilo”, lembrou Eliseu, entre sorrisos. “Antes, eu perguntei para minha esposa ‘você quer que eu fique?’, ela falou ‘não, a gente trabalhou duro para você ir, pode ir tranquilo que vai dar tudo certo’.”

O jogador conheceu o filho apenas 13 dias depois, mas voltou da disputa com uma medalha de ouro nas duplas mistas e um bronze na disputa individual. “Quando ele falar ‘você não estava no meu nascimento’ eu posso falar ‘estava lá competindo, aqui está prova’”, riu o paranaense.

Há dois anos, chegou a pequena Natasha e completou a alegria da vida de Eliseu. “Deus colocou inúmeras pessoas na minha vida para me dar força. Meus filhos são meus dois anjinhos”, comemorou o jogador de 43 anos.

Eliseu dos Santos com a esposa e os dois filhos
Eliseu dos Santos com a esposa e os dois filhos (Reprodução/Instagram)

Como tudo começou

Eliseu começou na bocha em 2005, depois de assistir a alguns praticantes na associação onde fazia fisioterapia. Mesmo sem entender o esporte, ele foi convidado para participar e entrou na categoria BC4. Apenas dois meses depois de começar a treinar, Eliseu participou do Campeonato Brasileiro e conquistou a medalha de bronze. A conquista até hoje é a mais especial da carreira do paranaense.

“Quando eu voltei pra casa, minha mãe me olhou de um jeito, um olhar de orgulho, com os olhos lagrimejando. Como foi a primeira, é uma medalha que eu gosto muito, eu ficava tirando ela da gaveta para olhar de 5 em 5 minutos”, recordou, com carinho.

Depois da competição, Eliseu foi convocado para integrar a seleção brasileira e, de lá para cá, virou referência na bocha. “Nem passava pela minha cabeça. Minha distrofia muscular começou com 10 anos e eu sonhava em ser jogador de futebol. Não fui para a seleção brasileira de futebol, mas fui para a seleção de bocha e represento o meu país de qualquer jeito. Meu sonho foi realizado.”

Paralímpiada ao lado do amigo

Por falar em sonho, em 2008, o paranaense representou o Brasil pela primeira vez numa paralímpiada, em Pequim, na China.

“Você fica olhando a estrutura, pensando ‘estou do outro lado do mundo, vou representar meu país’, não dá nem para explicar a emoção, é algo mágico, é surreal”, afirmou.

Ao seu lado, estava um amigo especial. Dirceu Pinto, tetracampeão paralímpico, que faleceu no início de abril devido a problemas cardíacos.

“Eu considerava o Dirceu um irmão que a bocha me deu. Até agora é difícil acreditar, é difícil aceitar, por tudo o que nós vivemos. Quando a gente foi para Pequim, nosso objetivo era conquistar pelo menos uma medalha para nossa modalidade aparecer mais. No fim, ele foi ouro no individual, eu fui bronze, e na dupla fomos ouro”, lembrou Eliseu. “Fiquei muito triste com essa perda, mas ele vai continuar com a gente, vai continuar torcendo, dando força e nós continuaremos aqui fazendo o que ele amava, que é praticar a bocha.”

Em Londres-2012, Eliseu também foi medalha de ouro ao lado de Dirceu Pinto
Em Londres-2012, Eliseu também foi medalha de ouro ao lado de Dirceu Pinto (CPB)

Competir em casa

Depois de conquistar quatro medalhas ao lado de Dirceu (dois ouros em duplas mistas e dois bronzes na disputa individual), em 2016, Eliseu competiu também ao lado do irmão, Marcelo dos Santos. Apesar de ser mais velho, com 47 anos, Marcelo começou na bocha mais tarde, em 2008.

Participar de uma paralimpíada ao lado do irmão, e dentro do Brasil, foi muito especial para Eliseu, especialmente pela força da torcida.

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“Tinha pessoas que nem conheciam bocha, mas a energia que passavam, a vibração deles dava muita força para a gente. Até o piso tremia, era uma energia que levantava. Eles fizeram uma festa muito linda. Nós fomos prata, mas nossa torcida foi ouro”, lembrou o jogador.

Na Rio-2016, Eliseu foi prata ao lado do irmão Marcelo e de Dirceu Pinto
Na Rio-2016, Eliseu foi prata ao lado do irmão Marcelo e de Dirceu Pinto (Fernando Frazão/ Agência Brasil)

Inspiração

Com uma história tão bonita na bocha paralímpica, Eliseu dos Santos é inspiração para muitos atletas que sonham em começar na modalidade. Segundo ele, tudo começou a mudar depois da participação dele e de Dirceu em Pequim-2008.

“A partir dali nossa modalidade teve um outro olhar, e os atletas do Brasil começaram a ver que se você começar a se dedicar e trabalhar você chega onde quer. Hoje, do jeito que está a bocha, vários atletas podem estar na seleção, eu acho que o Brasil está bem servido, não só na minha classe, mas em outras.”

Mas, para chegar ao sucesso, o paranaense aconselha: ‘O segredo é treinar e trabalhar. Quanto mais você treina mais perto você vai chegar do seu objetivo. Tem que abdicar de muita coisa para conseguir, mas quando você está indo para o pódio, você vê que tudo valeu a pena.”

classificado para Tóquio-2020, Eliseu ainda sonha em participar de outras paralimpíadas. Mais do que isso, quer continuar fazendo a bocha crescer e mudar vidas, assim como mudou a sua.

“Enquanto Deus continuar me dando força para continuar trabalhando, treinando, e se eu estiver acrescentando algo ao esporte, claro que quero continuar. Quero cada vez mais que nosso esporte evolua e tire mais pessoas com deficiência dentro de casa para praticar uma atividade. Se eu consegui, com minhas limitações, outras pessoas também conseguem viver o que eu vivi.”

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