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Guilherme Costa revela luta mental para superar drama de Paris-2024



Em entrevista exclusiva ao OTD, Guilherme Costa fala sobre o medo de reviver a decepção olímpica, as dúvidas sobre voltar ao seu nível e a felicidade recuperada nos Jogos Sul-Americanos



ROSÁRIO – Guilherme Costa sabe que ainda tem dentro de si o nadador que ficou a 0s26 da medalha nos Jogos Olímpicos de Paris-2024. Os treinos e os testes físicos, segundo ele, mostram isso. O desafio tem sido recuperar a confiança para transformar essa preparação em resultados. Em entrevista exclusiva ao Olimpíada Todo Dia, Cachorrão abriu o coração como ainda não havia feito sobre a luta mental que enfrenta desde aquela final olímpica e a busca para voltar a nadar feliz.

“Em vários momentos, óbvio que eu tive dúvida se eu ia voltar ao meu nível. Mas hoje eu vejo que sim, que está tudo aqui dentro de mim. Não perdi nada”, afirmou o brasileiro, que nos Jogos Sul-Americanos encontrou uma ajuda importante nesse processo.

Mais do que conquistar medalhas, voltou a sentir prazer em competir. A convivência com a delegação brasileira e o ambiente da vila de atletas têm contribuído para uma retomada que ele considera fundamental para os próximos anos.

O receio de sentir aquela dor novamente

Em Paris, Cachorrão terminou a final dos 400m livre em quinto lugar, com 3min42s76, recorde das Américas e melhor tempo de sua carreira. Foram apenas 26 centésimos de distância para o bronze. A dor de ficar tão perto do pódio apareceu imediatamente depois da prova, quando disse que nunca mais gostaria de sentir aquilo.

Agora, o nadador explica como aquela experiência o acompanhou nos anos seguintes. Por muito tempo, a frustração ocupou mais espaço do que o reconhecimento da própria atuação. “Eu fiquei um bom tempo magoado com o que aconteceu na Olimpíada e não pensando no que foi bom, nas marcas que eu fiz, em tudo que eu conquistei. Então acho que por muito tempo eu fiquei meio acuado, de não querer sentir aquilo de novo.”

Exatamente um ano depois de Paris-2024, Guilherme Costa nadou os 400 m livre no Mundial de Singapura para 3min48s94. Foram 6s18 pior do que o tempo da final olímpica. O resultado o deixou apenas em 22º lugar, bem longe das finais. No Pan-Pacífico, principal competição de 2026, ele marcou 3min48s66, 5s90 acima de sua melhor marca. Com o décimo tempo das eliminatórias, foi disputar a final B, onde marcou 3min50s77. Ficou em quinto lugar na bateria, mas em 13º na classificação geral.

“A Olimpíada doeu muito, mas acho que dói muito mais ter o ano como 25 e como esse ano agora, que não foi bom”, comparou. “O mais importante é chegar competitivo, porque é muito pior você ir para lá e não ser competitivo.”

“Com certeza é mental”

Ao buscar os motivos para a diferença entre os treinos e as competições, Guilherme Costa identifica na parte mental o principal obstáculo. Segundo ele, a preparação física e técnica continua em um nível semelhante ao que tinha antes de Paris.

“Com certeza é mental, porque nos treinos eu estou, assim como na Olimpíada, treinando muito bem”, disse. “Eu estava pronto fisicamente, tecnicamente, nos treinos, muito bem, tudo normal.”

Cachorrão conta que já começou a trabalhar para mudar esse cenário. O nadador está sendo cuidado de perto por Carla Di Pierro, psicóloga do Comitê Olímpico do Brasil e também se apoia nos resultados dos testes físicos realizados no COB para recuperar a convicção de que pode voltar a competir entre os melhores.

“Todos os testes que a gente faz lá no COB, tudo, dá tudo exatamente igual. O organismo não tem nada diferente. Então tenho certeza que eu vou voltar.”

Apesar das dúvidas sobre recuperar o melhor nível, ele afirma que não pensou em encerrar a carreira. O objetivo de disputar mais uma Olimpíada continua presente.

“Em nenhum momento eu pensei em parar. Óbvio que eu fiquei mal, triste, mas em parar não.”

Nos Sul-Americanos, a felicidade de competir

A participação nos Jogos Sul-Americanos ganhou um significado especial nessa busca. Cachorrão diz que está vivendo a competição em que mais se sentiu feliz no ano. Voltar a vencer, nadar bem e compartilhar a rotina com atletas de outras modalidades tem ajudado a reconstruir sua confiança.

“Acho que está sendo mais importante para mim a retomada do que pelas medalhas em si”, explicou. “Acho que é importante para mim retomar confiança, vencer provas, bater na frente, nadar bem, me sentir feliz também na competição.”

O ambiente da vila também trouxe de volta uma experiência da qual sentia saudade. Para ele, o contato com a equipe brasileira e com outros esportes faz diferença em um momento de reconstrução. “Para mim está sendo muito importante. Acho que foi a melhor decisão que eu tomei de ter vindo para cá.”

Disposto a tentar outra vez

Com Los Angeles-2028 no horizonte, Cachorrão quer recuperar o patamar em que chegava às grandes competições como candidato ao pódio. Para isso, começa a aceitar também a possibilidade de voltar a enfrentar uma frustração como a de Paris.

“Agora estou pronto para, se precisar, sentir aquilo tudo de novo. O que importa é eu estar lá disputando, brigando pela medalha”, afirmou.

A medalha continua como objetivo. Mas, depois de passar por competições em que não conseguiu brigar pelas primeiras posições, o nadador passou a dar outro valor à oportunidade de chegar preparado e participar dessa disputa.

“Independentemente se vai vir a medalha ou não, eu quero chegar pronto para competir, porque é muito melhor do que não estar competindo pela prova.”

Fundador e diretor de conteúdo do Olimpíada Todo Dia Jornalista esportivo desde 1997 com experiência em coberturas de Jogos Olímpicos, Copas do Mundo, Mundiais, Jogos Pan-Americanos e muito mais. Teve passagens por ESPN, Portal Terra, TV Gazeta, Gazeta Esportiva, Agora São Paulo e Agência Estado

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