ROSÁRIO – Gabrielle Henrique começou a praticar esporte porque precisava cuidar da saúde. Aos sete anos, por causa da asma, recebeu a recomendação de iniciar uma atividade física. Ela queria fazer balé, mas, entre as opções disponíveis para sua idade em Taboão da Serra, encontrou o caratê. Fez uma aula experimental, se apaixonou e nunca mais parou. Onze anos depois, aquela indicação médica levou Gabrielle ao lugar mais alto do pódio dos Jogos Sul-Americanos Santa Fé-2026.
“Eu sempre tive problema com asma e a equipe médica que cuidava de mim indicou a prática de um esporte. Aí eu fui procurar na minha cidade. O esporte que estava disponível para a minha idade, eu tinha sete anos na época, era o caratê. E eu queria balé. Olha a diferença!”, contou, aos risos. “Eu fui lá, fiz a minha primeira aula experimental e, cara, eu me apaixonei. Nunca mais parei de treinar.”
A coreografia do katá
Há uma coincidência curiosa nessa história. Gabrielle não seguiu para o kumite, vertente do caratê em que dois atletas se enfrentam diretamente. Especializou-se justamente no kata, no qual o carateca executa uma sequência de técnicas diante dos árbitros. De certa maneira, a coreografia que ela procurava no balé apareceu em outro lugar. “Tem toda uma coreografia. Dá para juntar as duas coisas”, brincou.
Para quem está mais acostumado a relacionar o caratê aos combates, Gabrielle explica o kata como uma luta na qual o adversário existe, mas não está fisicamente diante do atleta.
“No caratê tem o kata e o kumite. Eu faço o kata. O kata basicamente é uma apresentação de golpes e defesas que, se você for aplicar, todos eles têm uma aplicação real contra uma pessoa. Mas não tem alguém direto na sua frente. Então é como se fosse uma luta imaginária.”
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Em Santa Fé, Gabrielle venceu todas essas “lutas”. Aos 18 anos, a brasileira conquistou nesta quarta-feira (23) a medalha de ouro do kata individual feminino. Foi sua primeira participação nos Jogos Sul-Americanos e também sua primeira experiência no ambiente de uma grande competição multiesportiva representando o Time Brasil. Além do título, Gabrielle garantiu a classificação para os Jogos Pan-Americanos de Lima-2027.
“Minha primeira vez em Jogos Sul-Americanos e, com certeza, está sendo muito emocionante. Eu treinei muito para estar aqui e trazer essa medalha para casa, trazer o título para o Brasil. Com certeza eu vou guardar para sempre”, afirmou Gabrielle Henrique. “Eu sempre chego com esse espírito de lutar. Em todas as rodadas eu sinto que estou numa final. E eu pensei nessa final: ‘Eu não vou sair daqui sem pegar a medalha de ouro’. E eu fui lá e fiz”, completou.
Seleção brasileira aos 15 anos
A menina que chegou ao caratê por indicação médica começou a enxergar o esporte como profissão alguns anos depois. Gabrielle aponta 2023 como um divisor de águas. Foi quando participou de uma seletiva nacional e conseguiu entrar para a seleção brasileira.
A partir daí, as viagens internacionais e as disputas de Sul-Americanos e Pan-Americanos passaram a fazer parte da rotina. Um ano depois, ela já estava entre as adultas. “Em 2024 eu fiz um feito histórico. Entrei na seleção sênior com apenas 15 anos de idade. Então, com certeza, a partir dali mudou totalmente e virou minha profissão.”
Apesar da pouca idade, Gabrielle chegou aos Jogos Sul-Americanos carregando um currículo significativo. Segundo a própria atleta, ela é tricampeã pan-americana, tricampeã sul-americana e quatro vezes campeã brasileira, além de ter um vice-campeonato pan-americano sênior. Mesmo com todas essas conquistas, o ouro de Santa Fé ganhou um significado diferente. “Com certeza essa aqui vai ser uma das especiais por fazer parte do circuito olímpico, representando o Brasil.”
A primeira experiência na Vila
O caratê fez parte do programa dos Jogos Olímpicos de Tóquio-2020, mas ficou fora das edições seguintes. Dessa forma, competições continentais multiesportivas como os Jogos Sul-Americanos e os Jogos Pan-Americanos são as únicas oportunidades para os caratecas integrarem delegações do Time Brasil. Para Gabrielle, Santa Fé representou o primeiro contato com esse ambiente.
“Antes de vir para cá eu estava muito ansiosa, ainda mais por saber que é totalmente diferente daquilo que eu já competi. Chegar na Vila, estar com todo mundo, encontrar vários esportes diferentes, o pessoal que é profissional mesmo… É muito legal ter essa troca de experiência. Para mim está sendo muito incrível.”
De Santa Fé para Lima-2027
A primeira edição de Jogos Sul-Americanos de Gabrielle Henrique terminou com mais do que uma medalha de ouro. O desempenho em Santa Fé também abriu a porta para a próxima grande experiência multiesportiva da carreira.
Os dois finalistas do kata individual feminino asseguraram classificação para os Jogos Pan-Americanos de Lima-2027. Agora haverá cerca de um ano para transformar a experiência vivida na Argentina em preparação para o próximo objetivo. “Com certeza vou chegar com tudo”, respondeu Gabrielle ao falar sobre a vontade de buscar também o ouro no Pan.



