Nascida em Burkina Faso, Némata Nikiema sonha representar o Brasil e conquistar uma medalha olímpica no salto em distância. Campeã do Troféu Brasil e atleta do Esporte Clube Pinheiros, ela ainda não iniciou formalmente o processo de naturalização, mas acredita que defender o país pode abrir novas oportunidades em sua carreira.
O desejo faz parte de uma trajetória iniciada longe da família. Némata chegou sozinha ao Brasil em 2019, sem falar português, e passou quatro anos sem ver os pais. Durante esse período, também enfrentou a morte de Fernando de Oliveira, treinador que a conheceu em uma competição escolar no Marrocos e a convidou para treinar no país.
Em entrevista ao Olimpíada Todo Dia, Némata relembrou as dificuldades vividas desde a infância em Burkina Faso, explicou por que deseja competir pelo Brasil e falou sobre os dois principais objetivos de sua carreira: conquistar uma medalha olímpica e proporcionar um futuro melhor aos pais.
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Um teste de 100m mudou a vida de Némata
Némata começou no atletismo ainda na escola, em Burkina Faso. Durante uma aula de educação física, um professor mediu seu tempo nos 100m e percebeu que ela tinha potencial para a modalidade.
A partir daquele teste, a jovem passou a treinar corrida e salto triplo. Posteriormente, recebeu um convite para disputar os Jogos Escolares no Marrocos. Foi durante a competição que conheceu Fernando de Oliveira.
O treinador brasileiro se interessou pelo desempenho de Némata e a convidou para treinar no Brasil. Ela aceitou a proposta e iniciou uma nova vida longe de casa.
“Eu vim sozinha. Não sabia nada do português, nada da cultura do Brasil. Eu vim mesmo em busca dos meus sonhos”, contou.
Depois de chegar ao país, Némata também passou pelos 100m, pelo salto triplo e pelo heptatlo. Com o tempo, destacou-se principalmente no salto em distância.
Dificuldades financeiras motivaram saída de casa
A decisão de deixar Burkina Faso também esteve ligada às dificuldades financeiras enfrentadas pela família. Segundo Némata, os pais não tinham condições de pagar os estudos de todos os filhos.
“A minha vida nunca foi fácil. Meus pais não tinham condições de pagar a minha escola. Quando apareceu essa oportunidade de vir treinar no Brasil, eu aceitei”, relatou.
Némata acreditava que, ao sair de casa, poderia diminuir as despesas da família e ajudar os irmãos a continuarem os estudos.
“Eu achei que, saindo de casa, seria uma a menos. Meus pais conseguiriam ajudar os meus irmãos a pagar os estudos. Saindo de casa, seria um peso a menos”, explicou.
A atleta deixou Burkina Faso ainda jovem, sem conhecer a língua portuguesa ou os costumes brasileiros. Com o passar dos anos, porém, a saudade da família aumentou.
Quatro anos sem ver os pais
Depois de chegar ao Brasil, Némata passou quatro anos sem encontrar os pais. O custo das passagens e a falta de recursos impediram que ela retornasse a Burkina Faso durante esse período.
“Eu vim sabendo que não ia conseguir voltar para casa. No início, foi muito difícil. Cheguei ao Brasil e fiquei quatro anos sem ver meus pais”, afirmou.
Mesmo com a distância, Némata manteve contato com a família por telefone e pelo WhatsApp. Atualmente, ela consegue visitar os pais quando disputa competições no continente africano.
A atleta também deseja levá-los para morar no Brasil.
“Eu quero dar esse futuro para os meus pais. Quero que eles também vivam e conheçam como é morar aqui no Brasil. Não me vejo treinando em outro lugar”, declarou.
Brasil abriu caminho para o sonho olímpico
Némata afirmou que encontrou no Brasil a estrutura necessária para continuar perseguindo seus objetivos. A atleta aprendeu português em aproximadamente seis meses e concluiu o ensino médio em Lavras, Minas Gerais.
Apesar da adaptação, ela preserva a ligação com Burkina Faso e com a cultura do país onde nasceu.
“O país onde eu nasci tem a minha cultura. Isso faz parte de mim. Mas o Brasil foi o país que abriu a oportunidade para eu conseguir seguir o meu sonho”, destacou.
Némata permaneceu em Lavras até 2022. Naquele ano, mudou-se para São Bernardo do Campo, onde passou a treinar com Nélio Moura e Tânia Moura.
Mais tarde, após alcançar a marca de 6,66m no salto em distância, recebeu a oportunidade de defender o Esporte Clube Pinheiros.
“Eu queria muito entrar no Pinheiros. Todo mundo falava que era o maior clube da América Latina. Realizei um sonho. A estrutura é muito boa e eles me acolheram muito bem”, disse.
Morte do treinador quase interrompeu a trajetória
Nove meses depois da chegada de Némata ao Brasil, Fernando de Oliveira morreu. Além de treinador, ele era uma das poucas pessoas com quem a atleta conseguia conversar em francês.
Longe da família e ainda em processo de adaptação, Némata chegou a pensar em abandonar o atletismo e voltar para Burkina Faso. No entanto, não tinha condições financeiras para retornar.
“Quando ele faleceu, fiquei meio perdida. Estava longe da minha família. Meu pai nem sabia o que estava acontecendo. Foi muito triste. Não foi fácil”, relembrou.
Némata recebeu apoio do filho e da esposa de Fernando e decidiu permanecer no Brasil. Anos depois, iniciou o trabalho com Nélio e Tânia em São Bernardo do Campo.
A atleta guarda até hoje uma frase publicada pelo antigo treinador após sua chegada ao país.
“Felizes são aqueles que têm belas histórias para contar.”
“Eu sempre carrego essa frase comigo. Ele sempre vai fazer parte da minha vida. Sempre serei grata a ele”, completou.
Némata sonha defender o Brasil nos Jogos
Némata ainda representa Burkina Faso nas competições internacionais, mas revelou o desejo de iniciar o processo de naturalização e, no futuro, defender o Brasil.
A atleta explicou que mantém gratidão pelo país onde nasceu. No entanto, acredita que teria mais oportunidades de disputar torneios de alto nível representando o Brasil.
“Sou muito grata por representar meu país e participar dos Jogos Africanos. Mas não tenho muitas oportunidades de competir em torneios fortes”, afirmou.
Némata citou competições como o Sul-Americano, o Pan-Americano e o Ibero-Americano. Para ela, participar desses eventos poderia contribuir para sua evolução no salto em distância.
“Aqui no Brasil, eu teria mais oportunidades para seguir a minha carreira. Participar dessas competições pode me ajudar a evoluir e saltar muito mais. Acho que posso encontrar isso aqui”, explicou.
A atleta ainda não iniciou formalmente o processo de naturalização. Segundo Némata, o Comitê Olímpico do Brasil também não entrou em contato com ela. Neste momento, o técnico e o Pinheiros ajudam a atleta a entender os próximos passos.
Medalha olímpica e futuro melhor para os pais
A conquista do Troféu Brasil reforçou a evolução de Némata no salto em distância. Depois de construir a carreira no país e superar as dificuldades dos primeiros anos, ela agora mira as principais competições internacionais.
Além de defender o Brasil, Némata pretende conquistar medalhas em Jogos Olímpicos e Campeonatos Mundiais.
“O meu sonho é ser medalhista olímpica e dar um futuro melhor para os meus pais. Quero ser medalhista olímpica e mundial”, concluiu.



