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Tóquio 2020

‘Não joguei a toalha’, diz Jéssica Messali em meio a risos e choro

Brasileira faz prova espetacular de recuperação e fica bem perto do pódio no triatlo após competir depois de passar por dez cirurgias em 25 dias, às vésperas de competir nos Jogos Paralímpicos

Jéssica Messali Jogos Paralímpicos Tóquio trialo paralímpico
Jéssica quase buscou o pódio (Fabio Chey/CPB)

Tóquio – Foram semanas que não vão sair tão cedo da memória de Jéssica Messali, do triatlo. Em pouco mais de um mês e meio, ela sofreu um acidente gravíssimo nos pés, precisou passar por dez cirurgias em 25 dias, amputou sete dedos e meio e viveu a dolorosa indecisão sobre a participação nos Jogos Paralímpicos de Tóquio. Conseguiu vir, não teve condições de fazer um bom desempenho na natação, porém não desistiu, superou o que parecia insuperável, ultrapassou seis adversárias no ciclismo e na corrida e fechou a epopeia a segundos daquele que seria, talvez, o pódio mais espetacular da capital japonesa. Acabou em quarto lugar e com o que chamou de misto de sensações.

Logo após a prova, muito emocionada, a atleta do Time Dux Nutrition afirmou que sai com uma lição de tudo o que passou. “Não jogar a toalha, e eu não joguei. Lutei até o final. Faltou pouco, estou frustrada, eu queria estar no pódio, trabalhei para isso, mas fica para Paris. Vou levar tudo isso para Paris. A gente tem mundial aí pela frente, parapan, tem um monte de prova. Vou levar essa sensação de estar um pouco p… para todas as provas”, falou, em meio a risos e choros. “Fiz uma prova profissional, digna. Saí em praticamente em último na natação e fiz um ciclismo espetacular, uma corrida. Estou com um nó na garganta e vai demorar três anos para desfazer em Paris. Eu prometo.”

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(Fabio Chey/CPB)

Acidente na sauna

Jéssica Messali queimou os pés em uma sauna no dia 6 de julho. Estava em Rio Maior, totalmente focada nos treinamentos visando os Jogos Paralímpicos. Precisou voltar para o Brasil e fez as dez cirurgias para a retirada de pele morta e a amputação dos dedos. Até então, vinha na chamada ponta dos cascos. Competiu três vezes em 2021 e fez três pódios: venceu a etapa da Copa do Mundo de La Coruña e foi vice na Série Mundial de Yokohama e no Parapan-americano de Pleasant Prairie, nos Estados Unidos.

(Atenção, fotos fortes)

Ano passado levou o ouro da etapa de Alhandra da Copa do Mundo e, em 2019, foi vice da etapa do Funchal e bronze na de Magog, ambas da Copa do Mundo, e prata da Série Mundial em Milão e no Parapan-Americano de Sarasota. Ainda naquele ano, disputou o Iron Man 70.3, em Maceió, e fechou a prova em 5h57min, três minutos a menos da meta de seis horas, tornando-se a primeira mulher cadeirante da América Latina a concluir a competição. Ela conheceu o esporte paralímpico em 2017, quatro anos após ter sofrido um acidente automobilístico que a deixou paraplégica.

Dificuldade na água

Dentre toda a dificuldade que o acidente na sauna gerou especificamente na preparação para os Jogos Paralímpicos, a maior foi na natação. “Foram 47 dias sem nadar, (tive de usar) meias pesadas, placa de silicone. O que eu fiz na água foi um milagre. Eu saí totalmente desgastada e mesmo assim fiz um bom ciclismo, uma boa corrida. Dei tudo, não consigo nem levantar o braço de tanta força que eu fiz”, disse. Ela saiu lenta da água para a transição, parecia que não completaria. “Saí morta. Olhei para o lado e não tinha mais cadeira nenhuma, mas falei: ‘acredita, vai, a prova só vai terminar no pórtico (linha de chegada), vai, vai’ e fui ganhando posição no ciclismo. Quando chegou na corrida, já tinha passado quatro meninas e eu falei: ‘vai dar, mais um pouquinho’. Se tivesse mais uma volta de corrida teria dado pódio com certeza absoluta, é por isso que eu estou chorando. Se tivesse uma semana a mais (de treino) para nadar um pouco…nadei sem pulmão, nem sei o que eu fiz na água.”

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Jéssica cruza a linha de chegada após superar todas as dificuldades (Caio Poltronieri/OTD)

Ao final, em meio a um furacão que parecia estar passando pela sua mente, entre risos e choros seguidos, Jéssica Messali disse estar feliz. “Voltei a treinar há quinze dias e a gente não fez polimento, não fez nada”, comentou. “‘Foi bonito, né coach'”, perguntou em voz alta para o treinador, que aguardava ali do lado. Ele respondeu visivelmente emocionado: ‘sem palavras’. A seguir, já se encaminhando para o vestiário, recebeu um abraço apertado de um colega da delegação. Chorou muito em seu ombro e ouviu umas verdades: “você é f…, muito f…, é medalha de ouro.”

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