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Bruninho joga no Lube Civitanova, da Itália, desde 2018. (Foto: Guilherme Cirino)

Tóquio 2020

Como o coronavírus afetou brasileiros que atuam na Europa

Enfrentando quarentenas e com medo de contaminações, brasileiros falam sobre a realidade da Europa durante a pandemia do coronavírus

Bruninho joga no Lube Civitanova, da Itália, desde 2018. (Foto: Guilherme Cirino)

Como o coronavírus afetou brasileiros que atuam na Europa

Se o coronavírus começou a chegar com força no território brasileiro na última semana, na Europa a doença já faz muitas vítimas diariamente. Além de fechar escolas, comércios e prédios públicos, a pandemia afetou também o mundo esportivo. A grande maioria dos campeonatos foi paralisada e os atletas foram diretamente afetados. Entre eles, muitos brasileiros estão isolados, com medo e tentando manter a forma física da melhor maneira possível.

Na Itália, país europeu mais afetado pelo COVID-19, o governo decretou uma quarentena nacional desde o último dia 9. Já são mais de 31 mil contaminados e 2,5 mil mortos.

“O país está numa situação de emergência, as coisas estão bastante complicadas por aqui”, relatou o jogador de vôlei Bruno Rezende, o Bruninho, que atua no Lube Civitanova, da comuna de Macerata. “Muitas cidades estão bloqueadas, todos os eventos esportivos estão suspensos até dia 3 de abril e medidas preventivas estão sendo feitas a cada dia”, continuou o jogador.

Depois que a quarentena foi decretada, ninguém pode sair de suas casas. Bares, restaurantes, shoppings foram fechados e jogos e treinos, cancelados. As pessoas podem sair apenas para ir ao supermercado ou à farmácia. “Percebam que meu cabelo está muito grande e a barba também. Não posso, e nem tenho como, ir no cabelereiro ou no barbeiro”, brincou Bruninho em suas redes sociais.

Permissão para treinar

O jeito para enfrentar a quarentena é tentar adaptar alguma atividade física dentro de casa. É o que faz o velejador bicampeão olímpico Robert Scheidt, que vive na cidade de Torbole com a família. Ele aproveita a situação para dividir o tempo entre os treinos físicos e a mulher, Gintare, e os dois filhos, Erik e Lukas.

“Essa é uma situação sem precedentes na historia mundial e no olimpismo. Provavelmente não teremos mais nenhuma competição até os Jogos e isso coloca todo mundo em um nível de igualdade. Todos chegarão sem ritmo de regata. Ao mesmo tempo, isso é uma oportunidade para quem souber aproveitar bem esse período para se preparar da melhor forma possível. É o que estou fazendo, tocando em frente”, afirmou o maior medalhista olímpico do Brasil.

Mesmo confinado, Scheidt segue a preparação para a Olimpíada de Tóquio, marcada para julho, e luta para poder velejar nesse período.

“Não tenho podido ir para a água porque existe uma proibição quanto a atividades externas. Mas estou tentando viabilizar uma permissão com uma carta do COB (Comitê Olímpico Brasileiro)”, explica o velejador. A carta do COB pode ajudar o brasileiro a receber permissão das autoridades italianas para velejar no Lago Di Garda, ao lado de sua casa.

Robert Scheidt mora às margens do Lago di Garda, no norte da Itália (Foto: Divulgação)

Espanha em alerta

A Espanha é o segundo país europeu com mais casos do novo coronavírus. São mais de 13 mil contaminados e quase 600 mortes no país ibérico. Todas as atividades também foram obrigadas a parar, incluindo os torneios esportivos.

Com quatro brasileiros, a Liga Espanhola de basquete masculino decidiu, num primeiro momento, realizar as partidas com os portões fechados. Com o avanço da pandemia, no entanto, determinou a suspensão de todos os jogos até o dia 24 de abril. Os treinos também não acontecem mais e os jogadores são obrigados a ficar em casa.

“Todo mundo aqui na Espanha está em estado de alerta, em quarentena obrigatória, tudo fechado, só supermercados, farmácias e postos de gasolina abertos. A polícia está na rua dando multa para quem está andando de bobeira, o exército indo para a rua também, então a situação está muito séria”, contou o brasileiro Marcelinho Huertas, armador do Iberostar Tenerife. “Então está todo mundo fechado em casa, tendo que fazer os treinos da maneira que a gente pode”.

https://www.instagram.com/p/B9wZTL_IxGI/

O jogador aproveitou para deixar uma mensagem séria a toda a população brasileira que ainda não tem dimensão do tamanho da pandemia.

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“Seria importante que todo mundo levasse a sério, começasse a ficar em casa e evitasse que sejam infectados e portadores e que transmitam essa doença cada vez mais”, alertou Huertas. “Aqui na Espanha a coisa começou parecido com o Brasil, pouco a pouco, as pessoas brincavam muito, faziam piada com a Itália, que estava passando por um momento diferente, e, de repente, tinha chegado aqui com força.”

Treinos dentro de casa

Em Paris, Nathalie Moelhausen, da esgrima, também foi obrigada a se fechar em casa e adaptar uma nova rotina de exercícios. Com mais de sete mil casos, a França sofre com a rápida propagação do coronavírus e as pessoas se viram obrigadas a paralisar suas atividades e permanecerem dentro de seus lares. Os campeonatos esportivos e as atividades coletivas, como treinos, foram todos suspensos.

“No caso da esgrima isso pode ser super desvantajoso, porque trata-se de um esporte aonde precisamos de oposição e sparring partner pra treinar”, explica Nathalie. “Agora a questão é como usar o espaço de casa e transformá-la em sala de esgrima e treino. Por sorte, eu ja tinha tomado uma medidas no passado”, comemorou a atleta.

Deixando o sonho olímpico de Tóquio-2020 um pouco de lado, Nathalie propõe uma visão mais humanitária da situação. “Tenho uma responsabilidade social grande. O mais importante hoje é poder ajudar a humanidade a sair vencedora dessa luta. Os que souberem se adaptar sem medo a todas essas mudanças de vida, vão sobreviver a essa batalha”, finaliza.

https://www.instagram.com/p/B94DAQHKhxg/

Longe e com medo

Na Rússia, a situação não é tão grave como no resto da Europa, mas o medo do coronavírus permanece, especialmente em quem não é do país. A jogadora de handebol Hannan Nunes atua no Astrakhanochka e admite certa angústia com o novo vírus.

“A preocupação aqui está gigantesca porque a maioria da população é de risco. A cidade que eu jogo e moro chama Astrakah e não tem muita estrutura na saúde, então está bem complicado”, conta a jogadora.

Apesar da apreensão da brasileira, a cidade ainda não registrou casos da doença – no país há 148 – e a rotina continua normalmente. Os times, inclusive, mantém os treinamentos, apesar dos campeonatos terem sido paralisados. Mesmo assim, Hannah preferiria retornar ao Brasil para ficar mais tranquila.

“Eu particularmente estou tentando entrar em acordo com o clube para ir para o Brasil, já que o campeonato está parado. Difícil ficar tranquila com tudo isso né, ainda mais no interior da Rússia como é o lugar que eu moro. Espero que eu consiga ir para o Brasil, perto do meu marido, minha família, com mais suporte”, conclui a pernambucana que tem casa em São Bernardo.

Quarentena voluntária

Entre os atletas diretamente afetados pelo coronavírus tem ainda aqueles que conseguiram voltar para o Brasil antes das quarentenas serem decretadas. É o caso do esgrimista Athos Schwantes, que mora na Itália e conseguiu retornar ao país com a ajuda da Confederação Brasileira de Esgrima.

Assim que chegou, Athos se colocou em uma quarentena voluntária em Curitiba e não sai de casa nem para continuar seus treinamentos.

“Nesse período em que temos que ficar em casa, não precisamos ficar sem treinar. Como esgrimistas, temos que nos adaptar a qualquer situação”, afirmou o atleta, que mostrou os treinos em suas redes sociais.

Altruísma em sua decisão, Athos deixa ainda uma mensagem otimista para o combate da doença no Brasil e no mundo: “Vamos juntos vencer esse combate contra o coronavírus”. De combate, todos nossos atletas entendem bem.

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