Palco do Campeonato Mundial de Tênis de Mesa por Equipes, a Wembley Arena também foi cenário de um dos filmes mais populares do ano passado. Entre raquetes e apostas, “Marty Supreme” colocou o tênis de mesa no centro da cultura pop em 2025, auxiliado por uma campanha de divulgação que dividiu opiniões. O filme estrelado por Timothée Chalamet é inspirado em Marty Reisman, ex-mesatenista norte-americano que conquistou medalhas em Mundiais e foi uma figura polêmica nos anos 1940 e 1950. Mas quanto da história de Marty Mauser mostrada no cinema realmente aconteceu? Descubra mais abaixo.
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Marty Supreme é baseado em uma história real?
Essa é uma pergunta a princípio difícil de responder. Josh Safdie e Ronald Bronstein escreveram um roteiro original, ou seja, uma história que não é adaptada de ou inspirada em outra obra artística. Porém, eles se inspiraram em um livro escrito pelo jogador de tênis de mesa Marty Reisman, que no filme ganhou o nome de Marty Mauser.
O livro biográfico de Marty Reisman publicado em 1974 se chama “The Money Player: The Confessions of America’s Greatest Table Tennis Champion and Hustler” (“O Jogador do Dinheiro: As Confissões do Maior Campeão e Trapaceiro do Tênis de Mesa dos Estados Unidos”, em tradução livre).
Muitas cenas do filme se passam no Lawrence’s Broadway Table Tennis Club, um local que existiu de verdade, mas já estava demolido. O diretor de arte Jack Fisk conseguiu criar o cenário baseado nas plantas do local.
O filme começa em 1952 com Marty Mauser em busca de ganhar o Aberto da Inglaterra, um tradicional torneio que acontece em Londres entre 1927 e 2011. No filme, este torneio acontece na Wembley Arena, que já recebeu várias edições do Campeonato Mundial de Tênis de Mesa, incluindo a deste ano.
Afinal, quem foi Marty Reisman?
Marty Reisman nasceu em 1930 e começou a jogar tênis de mesa aos nove anos para relaxar após um colapso nervoso e aos 13 anos já era um destaque juvenil. Ele frequentava bastante o Clube de Tênis Lawrence’s, onde fingia ser um jogador ruim para ganhar dinheiro em apostas. Ele chegou a ser expulso de alguns torneios por apostar em si mesmo nos EUA.
Apesar de hoje o tênis de mesa ser um dos esportes mais fracos dos Estados Unidos, os EUA chegaram a ganhar medalhas e títulos em campeonatos mundiais nos anos 1940 e 1950. Ele participou de seu primeiro campeonato mundial em Londres, em 1948, mas sua consagração viria no ano seguinte.
O Mundial de Tênis de Mesa de 1952, no filme e na vida real
Marty Reisman conquistou cinco medalhas de bronze em campeonatos mundiais, três delas em Estocolmo 1949: individual, equipe masculina e duplas mistas. Além disso, ele foi bronze por equipes em Wembley 1948 e bronze nas duplas masculinas em Bombaim 1952.

Marty Reisman era conhecido por estar sempre falando, reclamando, brigando, seja consigo mesmo ou com os adversários, juízes ou espectadores. Já na mesa, ele era famoso por seu smash de forehand que chegava a 185km/h, conhecido como a ‘explosão atômica’ (“Atomic blast”) pela imprensa inglesa.
Apesar de não ter acontecido no Japão, como é retratado no filme, o Mundial de 1952 realmente foi marcado pela chegada dos nipônicos ao cenário do tênis de mesa. Reisman e Cartland perderam na semifinal para os japoneses Fujii Norikazu e Hayashi Tadaki. Após o torneio, eles passaram os meses seguintes fazendo turnês pela Ásia com o intuito de voltar ao Japão e desafiar os campeões mundiais.
O esperado reencontro aconteceu em um palácio de cinema em Osaka para 5 mil fãs, envolvendo Reisman, Cartland, Satō Hiroji e seu parceiro Hayashi Nobi. O confronto principal da noite, entre Reisman e Satō, terminou com uma vitória para o norte-americano.
A vida de Marty Reisman depois de “Marty Supreme”
Após 1952, Reisman não conseguiu ter o mesmo sucesso no circuito internacional. Uma das explicações pode ser que ele se recusava a jogar com as raquetes de borracha, trazidas pelos japoneses, e que viraram a norma no esporte. Mas o atleta seguiu participando por décadas de exibições pelo mundo. Além disso, ele continuou a ganhar torneios nacionais nos EUA. Ele venceu, inclusive, o campeonato americano de hardbat, uma versão do tênis de mesa sem a raquete de borracha, em 1997.
Ele dirigiu o Clube de Tênis de Mesa Riverside, em Nova Iorque, nos anos 1950 e 1960, frequentado por celebridades como o ator Dustin Hoffman, o enxadrista Bobby Fischer e os autores David Mamet e Kurt Vonnegut. Uma matéria da Sports Illustrated de 1977 apresentava o clube, como o local onde “donas de casa e diplomatas da ONU trocavam backhands, estudantes do ensino médio duelavam com corretores de bolsa aposentados”.
Conhecido por seu estilo espalhafatoso, usando roupas coloridas e chapéu Panamá, Marty Reisman morreu em 2012 aos 82 anos. Na época, ele ainda era um personagem influente no tênis de mesa, participando de programas de televisão e incentivando o esporte e o lado do espetáculo.
Os bastidores de “Marty Supreme” envolveram uma atleta olímpica dos EUA
Há poucos filmes dedicados ao esporte. Talvez o mais popular que envolve tênis de mesa seja “Forrest Gump”, de 1994, dirigido por Robert Zemeckis e estrelado por Tom Hanks. Nele, o personagem integra a famosa “diplomacia do ping pong”, em que mesatenistas dos EUA foram à República Popular da China como parte da aproximação dos governos de Mao Zedong e Richard Nixon. Um outro filme que já falamos aqui no Olimpíada Todo Dia é “As one”. O longa de 2012 fala da equipe unificada da Coreia, campeã no Mundial de Tênis de Mesa de 1991.
O instrutor de tênis de mesa de “Marty Supreme” foi o Diego Schaaf. O suíçotambém trabalhou em “Forrest Gump”, entre outros projetos, como um episódio de “Friends”, em que Chandler (Matthew Perry) joga tênis de mesa com o personagem de Paul Ruud. Schaaf é casado com Wei Wang, uma jogadora de tênis de mesa norte-americana. Wang, que disputou os Jogos Olímpicos de Atlanta 1996 e ganhou duas medalhas nos Jogos Pan-Americanos de Mar del Plata 1995, também colaborou com os treinos do filme.

O filme ficou muito perto de ganhar a alcunha de ‘blockbuster’, quando ultrapassa os 100 milhões na bilheteria norte-americana, apesar de suas 2h29min de duração. Tudo isso por conta de uma divulgação intensa promovida especialmente por Timothée Chalamet, e que gerou muita polêmica. Sucesso entre os críticos, o filme recebeu nove indicações ao Oscar, e ganhou 44 prêmios, com quase 300 indicações no geral.
Timothée Chalamet aprendeu tênis de mesa em 2018 para filmar “Marty Supreme”
O longa é dirigido por Josh Safdie, um diretor importante do cinema independente. Ele foi um dos realizadores de “Bom Comportamento”, de 2017, com Robert Pattinson, e “Jóias Brutas”, de 2019, com Adam Sandler. Josh sempre trabalhou em colaboração com seu irmão Benny Safdie, mas os dois se separaram e lançaram filmes no ano passado. Benny fez outro filme de esporte, “Coração de Lutador”, em que Dwayne Johnson interpreta o lutador de MMA Mark Kerr.
Timothée Chalamet treinou tênis de mesa por sete anos, pois o projeto começou em 2018 e levava a mesa de tênis de mesa para onde viajava, inclusive para o deserto, nas filmagens de “Duna”. Durante este período, o ator, indicado ao Oscar por “Me Chame pelo Seu Nome” em 2018 – onde aprendeu italiano e piano –, também treinou violão e teve aulas de canto por cinco anos para interpretar Bob Dylan em “Um Completo Desconhecido”, que também lhe deu uma indicação ao Oscar. A terceira indicação veio por “Marty Supreme”.
O que é real – e o que não é – de tênis de mesa em Marty Supreme?
Os personagens coadjuvantes relacionados ao tênis de mesa foram em geral inspirados em personagens reais, mas com algumas liberdades criativas.
A principal inspiração para Koto Endo foi Satō Hiroji, uma estrela japonesa do tênis de mesa, que foi campeão mundial em 1952. Foi a primeira vez que o Mundial de Tênis de Mesa que aconteceu na Ásia, mas não foi em Tóquio, como aparece no filme, e sim em Bombaim (atual Mumbai), na Índia.
Ele é interpretado por Kawaguchi Koto, que também é um jogador de tênis de mesa surdo, assim como no filme. Inclusive, ele ganhou uma medalha de bronze na disputa por equipes das Surdolimpíadas 2022 em Caxias do Sul.
Já Bela Kletzki, o jogador húngaro que sobreviveu ao Holocausto, é interpretado por Géza Röhring e inspirado em Alojzy Ehrlich, que na verdade era polonês. Vice-campeão mundial em 1936, 1937 e 1939, ainda foi bronze em 1935 e ganhou mais dois bronzes por equipes.
Ele é conhecido por uma troca de pontos com o romeno Paneth Farkas que durou duas horas e 12 minutos durante o Mundial de 1936. Depois da guerra, ele passou a morar na França e passou a defender o novo país entre 1952 e 1963.
A história contada no filme sobre como ele passou mel em seu corpo para alimentar outros prisioneiros foi realmente relatada por Marty Reisman. A reportagem da Sports Illustrated também indica que ele “foi descoberto pelado escondido em um armário por um marido nervoso com uma arma em Nova Iorque”.
Marty Reisman realmente participou de performances cômicas envolvendo tênis de mesa como primeiro ato da turnê do Harlem Globetrotters. Porém, ao contrário de Marty Mauser, ele fazia isso com Douglas Cartland, seu parceiro de duplas no Mundial de 1952.