O Brasil voltou ao topo do taekwondo mundial. Nesta segunda-feira (27), em Wuxi, na China, Henrique Marques conquistou o título mundial na categoria até 80 kg, ao derrotar o chinês Xiang Qizhang por 2 a 0 na final. O resultado representa o segundo ouro brasileiro no Mundial, repetindo o feito de Maria Clara Pacheco, campeã até 57 kg, que encerrou o jejum de duas décadas sem títulos do país no evento.
- O dia do Brasil no esporte: confira a agenda desta quinta, 19 de fevereiro
- Com Viggo Hendricks, Brasil é campeão do Sul-Americano sub-19 na chave individual
- Medalhista olímpico exalta João Fonseca: “É uma máquina”
- Corinthians alcança duplo quinto ao superar melhor defesa do NBB
- Atual campeão, Rafael Matos cai nas oitavas do Rio Open ao lado de Orlando Luz
+ SIGA O CANAL DO OLIMPÍADA TODO DIA NO WHATSAPP
A conquista coroou uma volta por cima impressionante. Em 2023, pouco antes dos Jogos Pan-Americanos de Santigo, Henrique precisou interromper a carreira por causa de uma arritmia cardíaca que quase o obrigou a se aposentar aos 19 anos.
+ SIGA O OTD NO YOUTUBE, TWITTER, INSTAGRAM, TIK TOK E FACEBOOK
“Meu coração batia errado 33 mil vezes ao dia”
O momento atual contrasta com o drama vivido em 2023. Dois meses antes dos Jogos Pan-Americanos de Santiago, Henrique foi diagnosticado com uma arritmia cardíaca grave. O problema o tirou da competição e o obrigou a passar por uma cirurgia de correção.
“Não poder praticar nenhum esporte porque meu coração batia errado 33 mil vezes por dia não assustava só a mim, mas todos os médicos que trabalharam no meu caso”, contou Henrique em entrevista à ESPN no ano passado. Ele teve a companhia, durante todo o processo, por uma equipe médica do Comitê Olímpico do Brasil (COB) e da Confederação Brasileira de Taekwondo (CBTKD).
O tratamento o manteve longe dos tatames por cinco meses. Só em janeiro de 2024 ele voltou a treinar, e em abril, surpreendentemente, conquistou a vaga olímpica para Paris ao derrotar o dominicano Moises Hernandez no Pré-Olímpico das Américas. Nos Jogos, chegou até as quartas de final — resultado que já representava uma vitória pessoal.
Fé, apoio e recuperação
Durante o período mais delicado, Henrique contou com apoio constante da CBTKD, da equipe médica e de seu técnico. “A confederação se disponibilizou bastante para todos os custos. Só tenho a agradecer à Doutora Stefhania [Sad], que cuidou de todo o processo”, relembrou em entrevista ao Olympics.com.
Com o lado religioso aflorado, o atleta escolheu não mergulhar nas informações sobre a doença. “Preferi não pesquisar muito, para não focar no lado ruim. Confiei que ia dar certo”, disse.
A cirurgia foi bem-sucedida, e os resultados físicos após a recuperação surpreenderam até os médicos. “Depois da operação, meu VO2 melhorou. Disseram que meu coração era meio ‘de gente velha’, entre aspas. Hoje me sinto melhor, mais disposto.”
Do projeto social ao topo do mundo
Henrique nasceu em Itaboraí (RJ) e cresceu no bairro de Porto das Caixas. Aos oito anos, foi convidado pela atleta olímpica Iris Sing para participar de um projeto social. “Eu achava o taekwondo legal, via o pessoal chutar, gritar, achava até que eram meio doidos”, brinca. “A Iris notou meu interesse e me deu uma bolsa de 25%. Eu pagava R$ 25”, lembrou à ESPN.
Antes disso, tentou o futebol, passando por Botafogo e Grêmio, mas a distância e as dificuldades financeiras o afastaram do sonho. “Tive momentos de ter só arroz e feijão pra comer. Minha cama era quebrada, a geladeira era travada com um pedaço de madeira”, relembra.
O taekwondo foi a porta para uma vida melhor — e hoje, aos 21 anos, o garoto do interior fluminense é campeão mundial e um símbolo de superação dentro e fora do tatame. Em pouco mais de um ano, ele passou de um diagnóstico que poderia encerrar sua carreira a um título mundial.