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Paralímpicos

Abril Azul: entendendo o autismo no esporte de alto rendimento

No mês da Conscientização Mundial do Autismo, o OTD explica a história e a classificação dos autistas no esporte paralímpico

Arte: Fernanda Zalcman/OlimpíadaTodoDia

Abril Azul: entendendo o autismo no esporte de alto rendimento

Abril é o mês da Conscientização Mundial do Autismo. Ainda hoje, o Transtorno do Espectro Autista (TEA) é pouco divulgado e pouco conhecido pela população, apesar de atingir uma a cada 160 crianças no mundo e 2 milhões de pessoas somente no Brasil, segundo dados da Organização Mundial Saúde (OMS). E no esporte não é diferente. Se por um lado o segmento paralímpico cresce a cada dia, por outro ainda falta muita informação, especialmente sobre a classe de deficiência intelectual e autismo no esporte de alto rendimento.

Hoje, no programa oficial paralímpico, não existe uma categoria específica somente para atletas com autismo. Alguns autistas são elegíveis e outros não. Como assim? O Olimpíada Todo Dia explica. São muitas as nuances envolvidas, desde o contexto histórico até a complexa forma de classificação. E por isso, nos unimos à campanha do Abril Azul para esclarecer e divulgar os principais pontos sobre o tema.

Conhecendo o Autismo

Confira um vídeo feito pelo Judô Para Todos, associação que luta pela inclusão através da prática do judô.

Contexto histórico – Escândalo

Atletas com deficiência intelectual competiram pela primeira vez nos Jogos Paralímpicos de 1996, em Atlanta. Competiram novamente em Sydney, quatro anos depois, quando um escândalo veio à tona: 10 dos 12 membros do time de basquete espanhol forjaram ter uma deficiência intelectual. 

Os atletas espanhóis usavam chapéus fora de quadra e deixaram a barba crescer na tentativa de não serem reconhecidos, mas acabaram desmascarados. Eles haviam sido campeões, mas depois de uma investigação perderam a medalha de ouro.

Depois disso, no entanto, o Comitê Paralímpico Internacional (IPC na sigla em inglês), suspendeu a classe para deficiência intelectual até que houvesse um sistema confiável de verificação, que só foi criado e aprovado nove anos depois, em 2009. Tal sistema, mais rigoroso na classificação e na elegibilidade de pessoas com deficiências intelectuais, permitiu que a classe pudesse competir novamente em Londres 2012. 

De lá para cá, incluindo também as Paralimpíadas do Rio 2016, os deficientes intelectuais elegíveis segundos os parâmetros estabelecidos (dos quais falaremos mais adiante), só podem competir em algumas provas em três modalidades: atletismo, natação e tênis de mesa.

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Time de basquete espanhol que forjou deficiência intelectual em Sydney 2000 (Foto: Reprodução/Youtube)

Quem pode e quem não pode competir?   

Para serem elegíveis na classe de deficientes intelectuais, os atletas devem cumprir a definição de deficiência intelectual estabelecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS): ter um QI (quociente de inteligência) menor que 75, limitações no funcionamento adaptativo, ou seja, habilidades sociais, domésticas e de comunicação, e a deficiência deve ter ocorrido antes dos 18 anos de idade. 

Além disso, é necessária uma série de documentações a serem entregues às organizações das competições. E tem mais um passo ainda. Os atletas são submetidos a uma espécie de teste prático.

“O que precisamos ser capazes de demonstrar é que a deficiência afeta o desempenho do esporte”, explicou à BBC em 2012 Jan Burns, a então chefe de elegibilidade da Virtus (Federação Internacional para Atletas com Deficiência Intelectual).

Nesses testes são analisadas habilidades intelectuais e cognitivas necessárias para a competição de alto rendimento, como tempo de reação e reconhecimento de padrões. E depois, os atletas são submetidos a mais testes, desta vez relacionados ao seu esporte específico.

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Mesmo entre os considerados elegíveis, haverá uma diferença de habilidades e capacidades e, consequentemente, diferentes categorias. “A classificação que é feita para os atletas paralímpicos pode ter um paralelo com a divisão por pesos nas artes marciais (judô, taekwondo, por exemplo), ou mesmo a divisão por idade. Estes exemplos também são uma forma de classificação”, explica Victor Lee, do site Paratletas, que auxilia pessoas a ingressarem no esporte paralímpico.

E o autismo?

Bem, o autismo é um caso à parte. Como foi dito no início da reportagem, não existe – ainda – uma classe específica somente para autistas. Há autistas que podem competir no alto rendimento e outros que não. “Atletas com autismo não são elegíveis para competir no programa paralímpico, exceto se tiverem também alguma outra deficiência elegível definida pelo IPC”, esclarece Victor Lee.

Explicando: o autismo está dentro de um espectro e por isso há muitas subdivisões e níveis. Alguns têm um transtorno mais grave, outros mais leve. Apesar de a maioria cumprir os dois últimos requisitos de elegibilidade (limitações adaptativas e diagnóstico antes dos 18 anos), nem todos têm QI abaixo de 75. Ou seja, nem todo autista é deficiente intelectual. Pelo contrário, alguns têm inteligência acima da média, com um QI maior do que 75 e, por isso, são inelegíveis para a classe paralímpica.

“Embora muitas pessoas acreditem que quem tem autismo têm dificuldades intelectuais, é importante desmistificar isso. O autista tanto pode ter um déficit intelectual como pode ter uma inteligência acima da média. Então a principal característica do autismo não é a inteligência e sim os prejuízos sociais e de comunicação”, explica a psicóloga Margarete Castilho.

“Muitas coisas que a maior parte das pessoas aprende de forma intuitiva, apenas observando, são difíceis de serem entendidas por pessoas com autismo, que precisam de instruções trabalhadas de forma diferenciada. E isso ocorre devido à dificuldade de comunicação, de compreensão da linguagem verbal e não verbal e de relacionamento”, completa.

Vale ressaltar que uma pesquisa feita pelo CDC (Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos) revelou que menos da metade de pessoas com  autismo – cerca de 40% – têm deficiência intelectual.

Alternativas

Ainda assim, os autistas inelegíveis para o programa oficial paralímpico podem competir no esporte de alto rendimento em duas oportunidades: nas chamadas “Olimpíadas Especiais” (Special Olympics), em que não há limite de QI, ou até mesmo no dito esporte convencional, caso tenham um transtorno leve.

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Logo das chamadas “Olimpíadas Especiais (Foto: Divulgação)

No entanto, a Federação Internacional responsável pelo desporto de alto rendimento de pessoas com deficiência intelectual (Virtus, antiga INAS) criou, recentemente, uma categoria específica para atletas com autismo e sem outra comorbidade, mas que ainda está em fase de teste.

Assim, há hoje três subdivisões dentro da classe para deficiência intelectual, duas delas ainda em testes: a II1, categoria para deficientes intelectuais, com os requisitos descritos acima; a II2, voltada para quem tem Síndrome de Down, ainda em teste; e a II3, para autistas que tenham QI acima de 75 e não tenham limitações adaptativas (transtornos mais leves, como a Síndrome de Asperger, uma das subdivisões do Espectro Autista).

Vale explicar, porém, que aqueles com Síndrome de Down podem competir no programa paralímpico dentro da categoria II1. E que as categorias II2 e II3 estão em testes dentro da Virtus e ainda não são válidas para as competições paralímpicas.

“Seria uma oportunidade a autistas sem deficiência intelectual, mas com dificuldades em socialização e comunicação, e com interesses em atividades repetitivas e restritas, a competirem em alto rendimento”, finalizou Victor Lee.

Muito além do alto rendimento

Autismo e esporte formam uma dupla que vale ouro e vão muito além do alto rendimento. Quanto antes diagnosticado e mais cedo começar o tratamento, maior é a tendência de evolução de uma criança com autismo. E o esporte pode ter um papel fundamental nesse processo.

“As atividades esportivas vêm ganhando muito espaço para trabalhar a inclusão das crianças com TEA. A prática de esporte ajuda muito no entrosamento, no aprendizado e na adequação de comportamentos através dos exercícios físicos, quando extravasam seus sentimentos. Além disso, percebe-se também uma grande evolução e ganhos cognitivos no desenvolvimento destas crianças. Geralmente é possível mesclar vários esportes de acordo com o nível de autismo e em qual espectro a criança está inserida. Bons exemplos são natação, futebol, basquete, hipismo, esgrima e até lutas, ajudando também no condicionamento físico das crianças com autismo”, conclui Margareth Castilho, enfatizando também a importância de procurar profissionais capacitados para este tipo de trabalho envolvendo a prática esportiva.

A reportagem acima foi publicada nos últimos dias do mês para lembrar e ressaltar que o Abril Azul termina, mas a conscientização sobre autismo deve e precisa continuar. Para mais informações, visite o site da Associação de Amigos do Autismo (AMA) e o portal Autismos.

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