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Daniel Dias se despede resgatando alegria de nadar: ‘Missão cumprida’

Tóquio 2020

Daniel Dias se despede resgatando alegria de nadar: ‘Missão cumprida’

Daniel Dias relembra desafios do último ciclo e o dia da despedida da natação, deixando o seu legado para a história

Conquistar 100 medalhas nas maiores competições do mundo não é para qualquer um. Mas Daniel Dias está longe de ser qualquer um. Foram 16 anos de dedicação ao esporte, que se encerraram nesta quarta-feira (1), quando ele nadou sua última prova nos Jogos Paralímpicos de Tóquio. O maior atleta da natação paralímpica mundial se despede das piscinas com sensação de missão cumprida e, principalmente, tendo resgatado o mais importante: a alegria de nadar.

“Nosso objetivo foi vir aqui e aproveitar ao máximo. Se divertir, sorrir bastante, mas com responsabilidade, claro. Eu estou muito feliz. Ao mesmo tempo que é um momento difícil, chorei muito, eu estou muito em paz com essa decisão, minha família também. A nossa missão aqui foi completa, alcançamos o que a gente almejava e até mais”, disse o craque em uma live no seu perfil do Instagram.

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“A pressão no alto rendimento é muito sacrificante. Por exemplo, o que vocês comem em um final de semana, uma pizza, chocolate, ele não faz isso há 16 anos. Isso é uma das coisas que o atleta de alto rendimento faz, então é muita doação. E chega uma hora que um cara que nem o Daniel perde um pouco a diversão… Então nosso objetivo em Tóquio era resgatar a diversão, essa felicidade de quando ele começou a nadar. Esses três anos de trabalho foram voltados para isso e as medalhas foram consequência. Essa felicidade, no alto rendimento, vale ouro”, completou o treinador Igor Russi.

Além do resgate da alegria, Daniel Dias e Igor contaram como foi o dia da despedida e relembraram os vários desafios que estiveram presentes no último ciclo paralímpico do atleta. Confira!

O dia da despedida

Daniel Dias disputou sua última prova como profissional
Daniel Dias e o treinador Igor Russi na saída da piscina, após a última prova (Ale Cabral/CPB)

O dia da despedida começou com a eliminatória dos 50m livre da classe S5, quando se classificou para a última final. E na última vez em que caiu na piscina profissionalmente, ele bateu em quarto lugar, encerrando a carreira com 27 medalhas paralímpicas.

“Hoje foi um dia diferente para mim, porque eu acordei chorão, chorei bastante de manhã. Sinceramente achei que seria mais fácil por ter tomado essa decisão antes, mas não foi. Quando eu olhava pra ele [Igor], ele já estava chorando, eu chorava junto… Ele nem conseguiu me dar boa prova, nem ficou perto [risos]. Tiveram momentos de choro, de sorrisos, de nervosismo, emoção… Foi díficil, mas estou feliz”.

Depois de deixar a piscina, Daniel Dias saiu abraçado ao treinador e foi ovacionado pelos outros atletas e membros da comissão técnica presentes na arena. E após um bom banho, ele aproveitou para fazer aquilo que não fazia há muito tempo: comer pizza, tomar um sorvete e beber refrigerante, como contou de forma bem humorada.

Desafios do ciclo

Mesmo para um atleta experiente como Daniel Dias, o ciclo para os Jogos Paralímpicos de Tóquio não foi fácil. O primeiro foi justamente resgatar a alegria de estar competindo, concluído com sucesso. Mas a pandemia e a reclassificação trouxeram boas dores de cabeça para ele e seu treinador.

“A pandemia foi um desafio, conseguiur manter o corpo ativo quando tudo fechou. No início foi bem difícil, o atleta da natação precisa da água. Foram muitas mudanças que tivemos que fazer, uma programação totalmente diferente. Depois veio o adiamento dos Jogos e um alívio, porque aí poderia fazer uma preparação melhor. No meio disso, ainda pegamos Covid-19…”, relembrou.

Daniel Dias em Jogos Paralímpicos
Daniel enfrentou a pandemia e a reclassificação durante o último ciclo (Ale Cabral/CPB)

“E a minha última competição antes da Paralimpíada foi o Mundial de 2019, em setembro. Depois disso não tive mais competições e isso sem dúvida afeta muito, porque a gente precisa de ritmo de competição. Ainda teve o grande desafio aqui de ter que ficar 14 dias no quarto, sem poder sair. A gente ficou sete dias sem treinar, isso foi muito difícil”, se referindo ao isolamento que boa parte da delegação brasileira teve de fazer depois de um membro testar positivo para o coronavírus.

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Quanto a reclassificação, não é a primeira vez que Daniel Dias fala sobre o assunto. Ele e muitos outros atletas foram prejudicados por esse processo e vêm pedindo ao Comitê Paralímpico Internacional que olhe para a questão com cuidado.

“Isso com certeza afetou muito, não só eu, mas muitos atletas. É triste a natação estar passando por isso hoje, mas é importante a gente falar. Eu vejo que a natação está regredindo. O sistema de classificação está inconclusivo, subjetivo, uma confusão. Os meus adversários de 2016, muito poucos estavam aqui, a maioria com quem eu estava competindo era de uma classe acima da minha e isso tornou tudo mais difícil. Então fica aqui o meu apelo ao IPC que olhe com carinho para isso. Por isso eu estou concorrendo ao conselho, para que eu possa brigar para que as coisas sejam justas, claras e o mais correto possível. O esporte paralímpico evoluiu tanto e a classificação não pode atrapalhar isso”.

O legado

Daniel Dias encerra a carreira com 27 medalhas paralímpicas e 40 Mundiais (Ale Cabral/CPB)
Daniel Dias encerra a carreira com 27 medalhas paralímpicas e 40 Mundiais (Ale Cabral/CPB)

Não é a primeira vez que o Olimpíada Todo Dia fala sobre o legado de Daniel Dias, que vai muito além das 100 medalhas, extrapolando as bordas das piscinas. Isso é o que mais dá alegria ao atleta, como ele contou logo após anunciar a aposentadoria.

E hoje, ele se despede do esporte nos Jogos Paralímpicos de Tóquio com a missão mais do que cumprida e já olhando para o futuro, pensando em como impactar – mais ainda – a vida das pessoas.

“Eu quero cuidar do Instituto Daniel Dias com muito carinho. Esse projeto nasceu há cinco anos e quero estar a frente agora para a gente possa fazer a diferença na vida de muitas crianças, com ou sem deficiência, trabalhando a ferramenta esporte. Eu acredito na ferramenta esporte como transformador de vidas. O esporte transformou a minha e é isso que eu acredito: que ele pode nos ensinar a ser campeões na vida”.

“Eu queria estar parando dessa maneira e hoje sou muito realizado por tudo que eu conquistei, não só em medalhas, mas por estar com esse sentimento hoje. Vou sentir muita saudade e era isso que eu queria ter de fato. É só começo de uma nova jornada, que tem muito ainda pela frente”, concluiu Daniel Dias.

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