Dez anos depois da conquista da primeira medalha de ouro do futebol masculino brasileiro em Jogos Olímpicos, Renato Augusto ainda guarda detalhes do caminho percorrido pelo Brasil na Rio-2016. Dos problemas para conseguir a liberação de seu clube na China à pressão depois de dois empates sem gols, o meio-campista viu a seleção brasileira se transformar durante o torneio até chegar à final contra a Alemanha no Maracanã. Em entrevista exclusiva ao Olimpíada Todo Dia (OTD), o jogador relembrou os bastidores de uma campanha que começou cercada por dúvidas.
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O Brasil empatou por 0 a 0 com África do Sul e Iraque, ambos no Mané Garrincha, e chegou à última rodada da fase de grupos ainda sem marcar. A mudança aconteceu diante da Dinamarca, quando o técnico Rogério Micale alterou a formação e recuou Renato Augusto. O resultado foi uma vitória por 4 a 0 que mudou o ambiente da seleção brasileira, que se classificou em primeiro do Grupo A. Porém, antes disso tudo, ele precisou garantir que estaria nos Jogos. Na época, o atleta defendia o Beijing Guoan, da China, e, como o torneio olímpico de futebol não fazia parte de uma Data Fifa, os clubes não eram obrigados a liberar seus atletas.
“Não existe a possibilidade de não ir”
Na entrevista, Renato Augusto lembrou que sua presença na Rio-2016 não surgiu como uma substituição a Douglas Costa. Segundo ele, seu nome já estava envolvido nas tratativas, enquanto a comissão técnica do Brasil enfrentava dificuldades para obter a liberação de jogadores acima dos 23 anos. A decisão pessoal de disputar a Olimpíada, porém, estava tomada antes mesmo da autorização do Beijing Guoan. Após ficar sem resposta por um tempo, o jogador acabou sentando com o treinador e o diretor da equipes chinesa para resolver dez vez a situação.
“Na verdade, na primeira lista eu já estava. É que, como a Olimpíada não é uma data Fifa, os clubes não têm obrigação de liberar. Então, por exemplo, eles tentaram o Thiago Silva e o PSG não liberou porque o Marquinho já ia. Aí tentaram o Douglas, e realmente estavam tendo dificuldade com alguns jogadores. Me ligaram, pensei e falei: eu posso. Eu não tinha nem falado com o clube, mas falei que poderia. Porque pensei assim, cara… Pô, a Olimpíada dura um mês e, na pior das hipóteses, vou abrir mão do mês de salário e arcar depois com os problemas que o clube pode, de repente, criar comigo. Mas era uma oportunidade única, e dei o ok, mas ainda tinha que conversar com o clube”.
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“Pude escrever meu nome na história”
A negociação não foi simples. Renato Augusto era uma das principais referências do time chinês e ouviu da direção que sua ausência representaria um problema esportivo. Foi então que utilizou a experiência recente da China como sede olímpica, já que tinha acabado de acontecer em Pequim-2008, e a ligação pessoal dele com o Maracanã para explicar por que não pretendia abrir mão da oportunidade.
“Eu falei, eu só quero que vocês entendam o seguinte. Vocês tiveram uma Olimpíada aqui há pouco tempo atrás. E eu acho que você está entendendo mais ou menos. E a final vai ser nesse estádio aqui. Eu tenho Maracanã tatuado, sempre tive uma Maracanã tatuado aqui. Eu falei, e a final é nesse estádio aqui, se você tivesse a oportunidade de ganhar a medalha de ouro nesse estádio aqui que eu estava falando com eles dentro do estádio do clube. Se fosse nesse estádio aqui vocês iriam? Aí eles olharam e falaram, pô, eu não tinha pensado dessa forma”.
Entretanto, o impasse se prolongou. A convocação se aproximava e os dirigentes do clube ainda não tinham dado uma resposta definitiva. “Eu falei, os caras da seleção me ligaram e falaram, vai ou não vai? Falei, eu vou, independentemente da resposta do clube”. No fim, houve um acordo. Renato Augusto permaneceu um pouco mais na China para disputar um compromisso importante pelo clube e perdeu os primeiros dias de preparação da seleção brasileira. Com isso, ele encontrou o grupo já em Goiânia e participou do amistoso contra o Japão pouco depois. “Acabou que foi tudo dando certo, mesmo tendo que me desgastar com o clube. Mas no final das contas, o clube foi legal comigo, me liberou, e pude escrever meu nome na história”.
Dois jogos, nenhum gol e a pressão aumentando

A história demoraria a ganhar a forma imaginada por Renato Augusto. Em 4 de agosto, diante de 69.389 pessoas no Mané Garrincha, o Brasil empatou em 0 a 0 com a África do Sul na estreia do Grupo A. Três dias depois, no mesmo estádio, um novo 0 a 0, desta vez contra o Iraque. A seleção brasileira tinha Neymar, Gabriel Jesus, Gabigol e outros nomes de destaque, mas passou as duas primeiras rodadas sem balançar a rede. O meio-campista explicou que a equipe iniciou o torneio em uma estrutura diferente daquela que Micale normalmente preferia. A preocupação era encontrar um equilíbrio que desse liberdade a Neymar sem comprometer a recomposição defensiva.
“Na verdade, a gente estava jogando num sistema que não era o sistema do Micale. O Micale gosta sempre de jogar com quatro espetados na frente. A gente teve que fazer o tripé (no meio) porque, na cabeça dele, ele achou que o Neymar não ia voltar para marcar. Então, ele ficou tentando achar encaixe para que o Neymar ficasse mais à vontade”. Para Renato Augusto, o desempenho não havia sido tão ruim quanto os placares sugeriam. O problema era que os gols não saíam — e a paciência das arquibancadas diminuía.
“Nos jogos, a bola não entrou. A gente até não fez jogos ruins, péssimos. Mas a bola, quando não entra, a torcida também começa a perder a paciência. Enfim, a gente passou por momentos difíceis de vaia, de tudo, apesar de não ter feito jogos nem péssimo, nem ruim”, relembrou Renato Augusto. A pressão recaía especialmente sobre os jogadores mais experientes. E o cenário exigiu uma mudança. “Até encaixar, a gente teve muita dificuldade. A gente conversou e o Micale achou melhor trocar o sistema. Ele viu também que o Neymar corria. E, realmente, o Neymar foi muito importante, principalmente nessa primeira pressão. E a gente mudou o sistema para o 4-2-4”, relatou.
Renato recua e Brasil muda de cara
Para a partida decisiva contra a Dinamarca, em 10 de agosto, na Arena Fonte Nova, Micale modificou a formação. Neymar, Luan, Gabigol e Gabriel Jesus passaram a atuar juntos na frente. Wallace e Renato Augusto compuseram o meio-campo, com o primeiro deles se aproveitando que Thiago Maia estava suspenso. Na cabeça do meia revelado pelo Flamengo e com passagem marcante pelo Corinthians, Wallace seria o jogador mais preso. Porém, a dinâmica do próprio jogo mudou o plano.
“Quando começou esse jogo contra a Dinamarca, o Wallace pegou a bola e saiu voando para a frente. Aí eu olhei, o Marquinho me olhou,. A zaga era Marquinho e Rodrigo Caio e ambos me olharam e falei: vou ficar aqui para compor. E acabou que foi encaixando dessa forma. Eu me senti também confortável de primeiro volante e fui jogando assim mesmo”. A alteração funcionou. Gabigol marcou duas vezes, enquanto Gabriel Jesus e Luan completaram a goleada de 4 a 0 que classificou o Brasil e encerrou de uma vez a seca ofensiva.
“Pude botar o jogo mais na minha mão”
Mais do que garantir a vaga, o triunfo na última partida da fase de grupos alterou a percepção sobre a seleção brasileira. “Esse jogo da Dinamarca foi um grande divisor para a equipe”, afirmou Renato Augusto. Para ele, a nova função também representou uma experiência importante. O jogador passou a ser responsável por coberturas, saída de bola e controle do ritmo de uma equipe muito jovem e agressiva ofensivamente.
“Para mim foi importante porque me amadureceu também naquele momento como atleta. Já tinha feito primeiro volante algumas vezes, mas não num nível de seleção brasileira, de uma Olimpíada, tudo que envolvia, onde você não pode errar. A cobertura tem que ser perfeita, a sua corrida tem que ser perfeita, a sua saída de bola, porque você tem que romper linhas, passar pelas etapas do jogo sem errar”, destacou Renato Augusto.
A posição também permitiu que Renato Augusto assumisse o papel de controlar a velocidade da equipe. “Pude botar o jogo mais na minha mão. Definir a hora de acelerar e a hora certa de segurar um pouco mais o jogo, ficar com a bola no pé”, explicou o meio-campista.
“São três jogos para o ouro olímpico”
Classificado em primeiro lugar do Grupo A, o Brasil enfrentou a Colômbia nas quartas de final, em 13 de agosto, na Arena Corinthians. Neymar abriu o placar em cobrança de falta no primeiro tempo e Luan fechou o 2 a 0 por cobertura, após passe do camisa 10. Para Renato Augusto, a entrada no mata-mata modificou o ambiente. “Quando a gente classificou, a gente foi para Salvador e o clima já mudou, estava tudo a favor. Quando a equipe chegou em São Paulo, já foi aquele clima de, cara, agora a gente já está perto. Porque aí você já começa a pensar: são três jogos para o ouro olímpico”.
A lembrança de frustrações anteriores do futebol brasileiro também apareceu. “Desde pequeno, eu lembro daquele jogo contra a Nigéria, aquele gol do Kanu. Eu era pequenininho e lembro do Galvão (Bueno) falando, acabou o sonho olímpico. Lembro de cada detalhe e falo: são três jogos para ser campeão, para botar o nome na história”. A vitória levou a seleção brasileira de volta ao Rio de Janeiro. No Maracanã, em 17 de agosto, o adversário da semifinal foi Honduras.
Se os dois primeiros jogos do Brasil terminaram sem gol, a semifinal teve um cenário oposto. Neymar marcou logo nos segundos iniciais depois de pressionar a saída de bola adversária. Gabriel Jesus fez dois, Marquinhos e Luan também balançaram as redes, e Neymar fechou o 6 a 0 de pênalti.
O exemplo de Neymar antes da final

Renato Augusto contou no papo com o OTD que, antes da semifinal, sua preocupação era evitar que o favoritismo provocasse relaxamento. Conversou com Neymar e pediu que ele liderasse a pressão sobre Honduras desde o ataque. “Eu lembro de ter conversado com o Neymar, de a gente fazer a pressão alta, de fazer a marcação pressão. E falei pra ele, falei, cara, você é espelho para todo mundo. Então, se você começar iniciando a pressão, vai todo mundo atrás de você, cara”. A resposta veio imediatamente. “Foi uma pressão incrível, ele já sai numa pressão alta muito rápida e sai o gol”.
Para Renato Augusto, aquela jogada mostrou o peso que um líder pode ter sem precisar de discursos. “Isso mostra que, às vezes, o líder de um time não precisa ficar falando muito, não precisa. Não são todos os momentos que ele tem que ficar botando a cara. Eu falei, cara, você tem que ser o exemplo. E ele foi lá e fez o que tinha que fazer”, relembrou. O 6 a 0 confirmou a classificação e deixou o camisa 5 na Rio-2016 com uma sensação que parecia distante após os dois empates sem gols do começo da competição.
“Naquele momento, eu vi que o time estava pronto para o título. Poderia não acontecer? Poderia, porque o futebol são muitos detalhes. Mas o time amadureceu em pouquíssimos jogos de uma maneira muito grande. O time conseguiu encaixar, amadurecer, se preparar para chegar a uma grande final. Cada jogo teve a sua importância para chegar até o momento da final”, destacou Renato Augusto.
“Orgulho de ter passado por tudo isso”
Três dias depois da semifinal, no dia 20 de agosto, o Brasil enfrentou a Alemanha no Maracanã. Renato Augusto estava a uma partida de realizar o sonho que usara, semanas antes, para convencer seus dirigentes na China: disputar uma final olímpica no estádio que fazia parte de sua vida desde a infância. Com a medalha conquistada, o jogador não tem dúvidas de que todo seu esforço valeu a pena.
“Muito orgulho de ter vivenciado e conquistado a primeira medalha, porque a primeira sempre fica marcada. Conquistar a primeira medalha marca bastante e vai ficar pra sempre marcado. A forma fica ainda mais especial por ter sido no Rio, por ter passado em vários estados do país, superado momentos difíceis, ter personalidade para bater pênalti, de poder realmente ir nos momentos difíceis, botar a cara na entrevista, porque a gente acaba apanhando muito e você tem que se defender, defender outros atletas, defender até o treinador. Então, muito orgulho de ter passado tudo isso”, concluiu Renato Augusto.




