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Grama sintética aumenta o risco de lesão no futebol?

ogadores disputam uma partida de futebol sobre campo de grama sintética.

Para quem joga futebol, a sensação costuma ser diferente assim que pisa em um campo sintético. A bola corre de outra forma, o pé parece prender mais em determinados movimentos e até a escolha da chuteira pode mudar. Isso leva a uma pergunta frequente: jogar na grama sintética aumenta o risco de lesão?

A resposta encontrada nos estudos é menos simples do que um “sim” ou “não”.

Uma meta-análise publicada em 2023 reuniu 22 estudos que compararam lesões no futebol em grama artificial e natural. No conjunto dos trabalhos, a incidência total de lesões foi 14% menor no sintético. Entre jogadores amadores, porém, os pesquisadores não encontraram diferença estatisticamente significativa entre as duas superfícies.

Outras revisões mostram um cenário diferente quando as lesões são analisadas por região do corpo. Há estudos indicando maior ocorrência de problemas em pés e tornozelos no gramado artificial e resultados específicos sobre lesões do ligamento cruzado anterior, o LCA.

Ou seja: afirmar simplesmente que “grama sintética machuca mais” ignora diferenças entre jogadores, tipos de lesão, qualidade do campo e características do equipamento.


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O risco geral de lesão é maior no sintético?

Os melhores estudos disponíveis não sustentam essa afirmação como regra geral.

Na meta-análise de 2023, a incidência total de lesões no futebol foi menor no gramado artificial quando todos os participantes foram considerados. Tanto homens quanto mulheres apresentaram taxas gerais menores no sintético nos estudos agrupados. Entre atletas profissionais, também houve menor incidência.

A conclusão muda um pouco quando se olha apenas para jogadores amadores.

Nos oito estudos dessa categoria, não houve evidência de diferença significativa entre grama natural e artificial. Isso é particularmente importante para quem joga futebol recreativo, porque resultados obtidos em atletas profissionais não devem ser automaticamente transferidos para a pelada do fim de semana.

Os próprios autores alertam que a qualidade da evidência ainda apresenta limitações. Apenas cinco dos 22 estudos incluídos ajustaram adequadamente seus resultados para possíveis fatores de confusão.

Por isso, a superfície é apenas uma das variáveis envolvidas.

E as lesões no tornozelo e nos pés?

Quando os pesquisadores separam as lesões por região do corpo, aparecem algumas diferenças.

Uma revisão sistemática que analisou 53 estudos de diferentes esportes concluiu que a maior proporção dos trabalhos encontrou mais lesões de pé e tornozelo em gramados artificiais do que na grama natural. Esse padrão apareceu tanto em superfícies artificiais antigas quanto nas novas gerações.

Para joelho e quadril no futebol, porém, os resultados foram mais semelhantes entre as superfícies.

Essa diferença ajuda a entender por que dois estudos podem chegar a conclusões aparentemente contraditórias. O número total de lesões pode não ser maior no sintético, mas determinados tipos de problema podem aparecer com frequência diferente.

Por que a tração entre chuteira e gramado importa?

Uma das hipóteses estudadas envolve a interação entre o calçado e a superfície.

Quando o pé toca o chão durante uma mudança rápida de direção, a chuteira precisa oferecer aderência suficiente para permitir o movimento, mas não tanta a ponto de prender excessivamente o pé enquanto o restante do corpo continua girando.

No gramado artificial, características como:

  • comprimento das fibras;
  • quantidade e tipo de material de preenchimento;
  • desgaste do campo;
  • umidade;
  • manutenção;
  • modelo e distribuição das travas da chuteira

podem alterar essa interação.

Isso significa que “gramado sintético” não representa uma superfície única. Existem diferentes gerações e sistemas, além de grandes diferenças de conservação entre os campos utilizados profissionalmente e aqueles encontrados em quadras recreativas.

A UEFA destaca que campos artificiais são sistemas formados por diversos componentes e que parâmetros como absorção de impacto, deformação, atrito e comportamento do piso fazem parte dos padrões técnicos utilizados para certificação.

Grama sintética aumenta o risco de romper o LCA?

Aqui a literatura exige ainda mais cuidado.

Uma revisão sistemática com meta-análise publicada em 2022 reuniu sete estudos sobre lesões do ligamento cruzado anterior no futebol. Quando homens e mulheres foram analisados juntos, não houve diferença significativa no risco de LCA entre gramado artificial e natural.

Quando os autores separaram os resultados por sexo, porém, encontraram uma diferença.

Entre mulheres, os jogos disputados em grama artificial apresentaram risco de lesão do LCA 18% maior do que os realizados na grama natural. Entre homens, a diferença encontrada não atingiu significância estatística.

Isso não significa que toda mulher que jogar no sintético estará em risco elevado nem que o gramado seja a única explicação para lesões do LCA.

O rompimento desse ligamento envolve uma combinação de fatores relacionados à desaceleração, mudança de direção, força, técnica, contato, características individuais e exposição ao esporte.

A superfície pode ser uma parte dessa equação.

Outros estudos chegam a conclusões diferentes?

Sim, e isso é importante.

Um estudo com atletas escolares dos Estados Unidos analisou mais de mil lesões de LCA em futebol e futebol americano. No futebol feminino, a proporção de lesões do ligamento foi maior no sintético. No masculino, algumas comparações mostraram diferença e outras não atingiram significância estatística.

Já a grande meta-análise de 2023 encontrou menor incidência de lesões de joelho no conjunto dos estudos de futebol em grama artificial.

Não é necessariamente uma contradição.

“Lesão de joelho” inclui diferentes problemas, enquanto “ruptura do LCA” é uma lesão específica. Além disso, os trabalhos estudaram populações, níveis competitivos, gerações de gramado e períodos diferentes.

É por isso que uma manchete isolada pode transmitir uma certeza que a literatura completa não oferece.

Para quem joga pelada, o que importa?

Para o jogador recreativo, o estado real do campo pode ser mais relevante do que a etiqueta “natural” ou “sintético”.

Antes da partida, observe:

  • se existem partes soltas ou levantadas no gramado;
  • se há buracos ou emendas;
  • se o preenchimento está distribuído de maneira uniforme;
  • se o piso está excessivamente molhado;
  • se existem áreas muito desgastadas;
  • se a chuteira permite movimentar-se sem prender demais o pé.

No gramado natural, também existem riscos. Buracos, lama, irregularidades, grama muito alta ou terreno excessivamente seco podem modificar a aderência.

Portanto, “natural” não significa automaticamente “mais seguro”.

Qual chuteira usar no gramado sintético?

A escolha deve considerar o tipo de campo.

Chuteiras específicas para gramado artificial costumam distribuir a pressão por meio de um número maior de travas mais curtas. Modelos destinados a gramados naturais podem possuir travas maiores e configurações diferentes.

Não é recomendável escolher a chuteira apenas pela aparência ou pelo modelo utilizado por um jogador profissional.

Observe se:

  • o pé permanece firme sem ficar comprimido;
  • a chuteira não escorrega dentro do calcanhar;
  • as travas são apropriadas para a superfície;
  • é possível girar e mudar de direção sem sensação de que o pé fica excessivamente preso.

Quando houver dúvida, a administração do campo, o treinador ou um profissional especializado pode informar quais modelos são mais apropriados à superfície utilizada.

A grama sintética causa mais queimaduras na pele?

Escorregar ou cair no piso artificial pode provocar abrasões conhecidas popularmente como “queimaduras de gramado”.

Uma revisão sobre lesões por abrasão mostrou que esse tipo de ocorrência é uma preocupação específica das superfícies artificiais, embora as características dos campos modernos tenham mudado em relação às gerações mais antigas.

Para reduzir o problema:

  • evite continuar jogando com feridas abertas;
  • lave abrasões após a partida;
  • cubra cortes adequadamente;
  • use roupas que protejam regiões que costumam entrar em contato com o solo quando isso fizer sentido.

Vermelhidão crescente, calor local, pus ou dor que piora podem indicar infecção e merecem avaliação.

Preciso evitar futebol no sintético?

Para a maioria das pessoas, não há evidência suficiente para recomendar evitar totalmente a superfície apenas pelo risco geral de lesão.

A maior meta-análise específica sobre futebol encontrou risco total menor no artificial e ausência de diferença significativa entre jogadores amadores.

Ao mesmo tempo, existem sinais de que determinadas lesões e determinados grupos podem responder de maneira diferente, principalmente em estudos sobre pé, tornozelo e LCA no futebol feminino.

O mais correto, portanto, é não transformar a discussão em uma disputa simples entre “sintético ruim” e “grama natural segura”.

Condição do campo, manutenção, chuteira, intensidade, experiência, preparação física e características do próprio jogador também influenciam o risco.

Para quem joga futebol por lazer, uma superfície bem conservada, equipamento adequado e uma progressão compatível com o próprio condicionamento provavelmente importam mais do que tentar escolher o campo apenas pelo material do gramado.

Consultora de wellness do Olimpíada Todo Dia. Profissinal de educação física, fundadora do Yoga Para Atletas, co-fundadora do Rachão Basquete Feminino, criadora de conteúdo do A Quadra É Delas e personal training

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