Quando Marcos Silva e Amauri Viana entraram em quadra para disputar a final do Campeonato Brasileiro de Basquete em Cadeira de Rodas, no Centro de Treinamento Paralímpico, em São Paulo, havia um título em jogo. De um lado, a equipe goiana Adfego (GO). Do outro, a Gadecamp (SP), de Campinas. O duelo, porém, colocou frente a frente duas trajetórias que começaram muito antes daquela decisão e que têm na modalidade um ponto em comum: nenhum dos dois praticava o esporte antes de adquirirem a deficiência. Duas histórias que começaram depois de acidentes, encontraram no basquete novos caminhos e, décadas mais tarde, cruzaram-se em uma final de competição nacional.
+ SIGA O OTD NO WHATSAPP, YOUTUBE, TWITTER, INSTAGRAM, TIK TOK E FACEBOOK
“O esporte me ensinou a ser homem de verdade”
Marcos Silva tinha 11 anos quando sofreu um acidente de trem. Um ano depois, ele conheceu o basquete em cadeira de rodas. Hoje, aos 44, são 32 anos dedicados ao esporte. “Nunca joguei esporte nenhum. Eu fui acidentado com 11 anos, me jogaram do trem, tive um acidente de trem e conheci o basquete com 12. Tenho 44 anos, então agora faz 32 anos que eu jogo. Conheci no HC, uma das equipes pioneiras do Brasil, que hoje ainda existe, mas não está nas divisões. Eu amei o esporte, então, para mim, foi fácil ir conquistando as coisas porque amava o que fazia. O esporte me ensinou a ser homem de verdade e a ter caráter. Significa paixão, amor e emoção”, afirmou em entrevista exclusiva ao Olimpíada Todo Dia (OTD).
Mais de três décadas depois daquele primeiro contato, Marcos Silva chegou ao topo do basquete brasileiro. Na decisão, ele anotou 17 pontos, seis rebotes e cinco assistências na vitória da Adfego sobre a Gadecamp por 69 a 61. Além de levantar o troféu, o atleta recebeu o prêmio de MVP da final.
Mais sobre basquete
Do sonho no futebol ao basquete
Amauri Viana estava do outro lado da decisão. A história dele com o esporte também começou após um acidente, mas antes disso já existia o desejo de ser atleta. Ele jogava futebol desde criança e pensava em seguir carreira. Aos 16 anos, sofreu um acidente de carro. Foi durante a passagem pelo Sarah Kubitschek que conheceu o basquete em cadeira de rodas. Posteriormente, já em Planaltina (DF), encontrou uma equipe e iniciou uma relação com a modalidade que o levaria, entre outras conquistas, a passar 12 anos pela seleção brasileira.
“Eu nunca joguei basquete na minha vida quando andava. Sofri um acidente de carro com 16 anos. E assim, no Sarah Kubitschek, eu conheci o basquete lá e gostei muito. Aí cheguei na minha cidade, lá em Planaltina, e tinha um time lá de jovens que me abraçou em 2007, e estou aí até hoje. Fui 12 anos de seleção, tenho 36″, disse Amauri Viana ao OTD, que complementou: “Eu era do futebol, né? Desde pequeno, sempre fui de escolinha de futebol. Almejava uma carreira, sim”.
Mas a transformação proporcionada pelo basquete não se restringiu à carreira esportiva. Amauri Viana conta que, depois do acidente, não gostava de ser observado enquanto estava na cadeira de rodas. No basquete, encontrou outras pessoas com deficiência e viu nos companheiros uma autoestima que, naquele momento, ele ainda buscava recuperar. “Eu era muito tímido, não gostava que ninguém olhava que eu estava na cadeira de roda. Quando cheguei no basquete conheci várias pessoas de autoestima alta e foi me dando essa autoestima. Foi tempo a tempo até eu recuperar tudo e hoje vivo uma vida normal. Não é a cadeira de roda que vai me impedir nada, nunca me impediu. E o basquete me levantou, sim. Hoje tenho tudo pelo basquete”.
De atleta a inspiração dentro de casa
A final de 2026 também marcou um momento importante na trajetória de Amauri Viana. A Gadecamp voltou a uma decisão da elite nacional depois de 11 anos. A última havia acontecido em 2015. Em 2025, o clube de Campinas terminou em quarto lugar, antes de avançar mais um degrau e conquistar o vice-campeonato nesta temporada. A relação de Amauri com o esporte, porém, ganhou outro significado fora das quadras. Aos 36 anos, ele agora tem alguém acompanhando de perto a carreira: Kaleb, seu filho.
O menino vai aos treinos com o pai e os dois também jogam basquete juntos em casa. Kaleb ainda pratica badminton e, segundo Amauri Viana, ele terá liberdade para decidir se deseja ou não seguir uma carreira esportiva. “Fora de quadra, ali nos treinos, que ele vai comigo, ele me dá um combustível fora do comum, que não sei explicar. Eu faço por ele, por minha esposa, pela minha mãe também que está em Brasília. Eu sou inspiração para ele, sim. Ele gosta muito do esporte e pratica basquete também comigo em casa, mas está treinando badminton também. É ele que vai escolher o que ele vai querer da vida. Mas acho que ele vai ser atleta.
Ao ser questionado no colo do pai se gosta de jogar basquete, Kaleb foi direto: “Eu gosto”. Vai ser um atleta? “Eu vou!”



