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Tóquio 2020

Daniel Dias apoia adiamento: ‘Seriam os Jogos mais injustos’

Em entrevista ao Olimpíada Todo Dia, o nadador paralímpico apoiou o adiamento dos Jogos de Tóquio, criticou a classificação funcional e despistou sobre a aposentadoria

Daniel Dias apoiou o adiamento dos Jogos Paralímpicos e criticou a classificação funcional da natação
Daniel Dias ganhou seis ouros nos Parapan de Lima (Foto: Heusi Action/Gabriel Heusi/Divulgação)

Astro da natação brasileira, Daniel Dias foi um dos atletas que defenderam o adiamento dos Jogos Paralímpicos e Olímpicos de Tóquio por conta da pandemia do coronavírus. Agora mais tranquilo, o multicampeão comentou sobre a decisão dos organizadores e do Comitê Paralímpico Internacional (CPI), contou como está a rotina em meio ao confinamento e criticou as mudanças na classificação funcional. Tudo isso em uma live feita no Instagram do Olimpíada Todo Dia, nesta quinta-feira (8).

Adiamento dos Jogos

Logo após o Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) se manifestar a favor do adiamento dos Jogos de Tóquio, Daniel Dias se posicionou e endossou a opinião da entidade. Para o nadador, o evento não teria sentido caso fosse realizado em meio à pandemia e os atletas precisariam furar a quarentena para manter a preparação.

“Todas as competições já estavam sendo canceladas, então não teria sentido fazer Jogos. E os Jogos, se ocorressem, seriam os mais injustos da história. A gente não ia conseguir se preparar 100%, muitos atletas iam se arriscar para treinar nessa quarentena. A gente iria treinar e ficaríamos desesperados. Isso prejudicaria a preparação em um todo e prejudicaria também os Jogos. O COI e o governo do Japão tomaram a decisão mais correta. A gente fala que esporte é saúde e realmente era o momento de pensar na saúde”, disse.

“Eu fiquei muito mais tranquilo com o adiamento. Talvez se não tivesse acontecido o adiamento nossa conversa seria diferente, você poderia ver um cara mais defensivo e até bravo com a decisão. Com a decisão do adiamento, a gente consegue cumprir a quarentena como precisa ser. Estou tranquilo nessa questão porque teremos tempo de se preparar para os Jogos e chegar na melhor forma física”, completou.

O lado bom da quarentena

Para um atleta acostumado a competir fora do país e passar longos períodos longe da família, como é o caso de Daniel Dias, o confinamento proporciona um tempo perto para acompanhar o crescimento dos filhos.

“Esse tempo em casa é bom para aproveitar a evolução dos filhos. Está sendo muito bom aproveitar esse tempo com eles, brincar com eles, algo que talvez eu não tenha conseguido fazer tanto. Para mim está sendo um momento especial, a rotina é puxada, entreter três crianças não é tão simples, mas é muito prazeroso desfrutar desse momento”, afirmou.

Apesar da difícil missão de entreter três filhos pequenos, Daniel Dias estabeleceu uma rotina e tem feito treinamentos em casa para manter a condição física.

“A gente não pode ficar parado, o que estou tentando fazer é manter uma rotina, de acordar cedo, se alimentar bem, como se estivesse treinando normalmente. Estou fazendo algo relacionado à parte física que o meu preparador me passou. Faço isso todos os dias para o corpo não ficar preguiçoso. Não é férias, mas a gente não pode sair de casa, então precisa fazer alguma atividade para não ficar parado”, afirmou.

Classificação funcional

Daniel Dias conquistou até hoje 40 medalhas em Mundiais, sendo 31 de ouro, mas na edição de Londres, em 2019, o brasileiro contabilizou apenas um ouro, uma prata e dois bronzes. A queda de medalhas é reflexo de uma readequação da classificação funcional, algo que é motivo de críticas por parte do nadador.

“Me afetou sim (a mudança na classificação). A gente tem a classificação e o peito mudou. Eu era SB4 e hoje sou SB5. Não cresceu mão, não cresceu perna, nada mudou. Muitos atletas eram SB6 e hoje competem como SB5 também. Tem atleta que foi campeão na Rio 2016 na categoria deles e hoje competem na minha. São coisas que infelizmente aconteceram na natação paralímpica. Espero que com esse um ano de adiamento, as coisas possam melhorar e ficar mais claras e justas. Nós não somos contra a mudanças, mas queremos que ela seja clara e objetiva, e não subjetiva como é hoje”, apontou.

Adiamento vira esperança de mudança

Daniel Dias vê o adiamento dos Jogos Paralímpicos de Tóquio como um tempo para que o Comitê Paralímpico Internacional possa refazer a classificação funcional de uma maneira correta.

“A realidade da natação paralímpica é essa. Até mesmo esse adiamento dos Jogos nos traz uma tranquilidade e uma esperança de que o Comitê Paralímpico Internacional possa realmente melhorar e fazer com que a classificação funcional não seja um assunto polêmico, mas seja tranquilo e que possamos explicar, porque hoje eu não consigo. Está muito subjetivo, é um achismo muito grande a classificação de hoje”.

Mizael Conrado, presidente do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB), tem trabalhado para oferecer saídas para que a classificação funcional possa se adequar a critérios técnicos que não sejam polêmicos e agradem a todos.

“O Comitê Paralímpico Brasileiro já havia enviado muitos dossiês para o Comitê Paralímpico Internacional de como a gente pode ajudar para que a classificação seja muito clara e justa. A gente não está só reclamando, estamos tentando ajudar em uma solução que consiga agradar a todos”, disse Daniel Dias.

Futuro e aposentadoria

Daniel Dias tem um vasto currículo de conquistas e está próximo de uma marca histórica. Aos 31 anos, o brasileiro soma 97 medalhas em grandes competições. São 33 ouros em Parapans, 40 medalhas em Mundiais (31 de ouro) e 24 em Jogos Paralímpicos (14 de ouro). Quando questionado sobre o que ele ainda almeja como atleta, o astro da natação disse que seu desafio diário é seguir evoluindo.

“Eu sei que tenho grandes conquistas, mas eu sempre acreditei que a medalha é uma consequência do que a gente faz nos nossos treinamentos. Meu maior desejo profissionalmente hoje é evoluir como atleta, chegar em Tóquio ano que vem e nadar minhas melhores marcas. Esse é meu maior desafio”, disse.

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Daniel Dias não esconde o quanto valoriza a natação por suas conquistas na vida, não só pelas medalhas, mas por mostrar o quão longe ele poderia chegar. O multicampeão não estabelece um prazo para parar, mas dá indícios de que isso só acontecerá depois dos Jogos Paralímpicos de Paris, em 2024.

“Eu sempre gostei de pensar ciclo após ciclo. Esse ciclo ganhou mais um ano e sempre falo que gosto de Paris, é uma cidade bonita e a próxima Paralimpíada vai ser lá. Mas vamos pensar em Tóquio, curtir esse momento. Uma Paralimpíada é algo incrível e um ciclo não passa tão rápido. Junto com a minha equipe, já conseguimos traçar o que queremos até Tóquio 2021. Vou pensar em Tóquio, depois vou sentar, conversar e ver até onde a gente pode ir”, finalizou.

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