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A trajetória de Clodoaldo Silva: campeão no esporte e na vida

Clodoaldo Silva conta como superou a paralisia cerebral para se tornar um dos maiores vencedores da história do esporte paralímpico brasileiro

A galeria de conquistas é impressionante. São 14 medalhas paralímpicas, seis ouros, seis pratas e dois bronzes, nove mundiais,  seis ouros, duas pratas e um bronze, e 19 em Parapans, 13 de ouro e seis de prata. Tudo isso conquistado por Clodoaldo Silva, portador de paralisia cerebral, causada por falta de oxigenação no parto, que passou por muitas dificuldades por conta da deficiência na infância, mas que descobriu na natação a chance de mudar a vida dele e de toda a família.

“A grande mensagem que eu posso passar é que eu tinha tudo para me fazer de vítima e de coitadinho e não fiz. Então, se eu consegui ser esse grande campeão, você posso fazer o mesmo, sendo campeão na natação, numa pista de atletismo, em qualquer modalidade. Se não conseguir ser um grande campeão no esporte, você pode ser um grande campeão na vida como eu acredito que eu sou”, diz Clodoaldo Silva, que agradece até hoje o grande esforço feito pela mãe, Maria das Neves, para ajudá-lo a superar as dificuldades.

“Eu sou de uma família que tenho três irmãs e um irmão. Meu pai se separou da minha mãe e eu tinha apenas dois anos de idade. A única imagem masculina e feminina foi da minha mãe, tanto que sempre digo que se tenho um grande ídolo no esporte, que é o Ayrton Senna, eu tenho uma grande ídola na vida, que é dona Maria das Neves, que é minha mãe. Ela sempre me falava, meu filho, você não é melhor do que ninguém, mas você não é pior”, lembra o Tubarão, como ficou conhecido no esporte paralímpico.

Clodoaldo Silva comenta evolução do esporte paralímpico no país

Clodoaldo Silva posa com algumas das muitas medalhas conquistadas por ele na carreira

“Clodoaldo tinha altas e baixas. Esteve muitas vezes internado. Por causa disso, era muito difícil eu trabalhar com carteira assinada porque começava a trabalhar, trabalhava um ou dois meses e, quando menos esperava, Clodoaldo adoecia”, lembra a mãe, que, no entanto, mostra extrema admiração em relação ao filho. “Ele foi muito corajoso em enfrentar o mundo. A natação para Clodoaldo e para a nossa família foi uma luz que acendeu no fundo do poço”.

O curioso é que natação só surgiu na vida de Clodoaldo Silva como alternativa para ajudar na recuperação de uma das tantas cirurgias realizadas nas pernas. “Minha última cirurgia, que foi no ano de 1996, o meu médico recomendou a piscina e foi engraçado porque quando eu fui para a piscina para fazer a fisioterapia foi a primeira vez que eu vi uma piscina”, conta o ex-nadador, que começou a ter resultados muito rapidamente. Quatro anos depois, ele já estava em Sydney para disputar os Jogos Paralímpicos.

“Se você me pergunta qual a Paralimpíada que você mais lembra com emoção e com alegria. Eu falo que foi 2000, em Sydney, porque foi a minha primeira, não tinha cobrança nenhuma. O Clodoaldo Silva ali não era o Clodoaldo Silva. Era um cara que pôde conhecer a cidade, era um cara que foi sem responsabilidade. Saí de lá com três medalhas de prata e uma de bronze”, se recorda.

Clodoaldo Silva - esporte paralímpicos

Clodoaldo Silva foi o responsável por acender a pira na abertura dos Jogos Paralímpicos de 2016 (Getty Images)

Foi o pontapé inicial de uma trajetória recheada de conquistas que terminou na Paralimpíada do Rio de Janeiro em 2016 com a conquista da medalha de bronze no revezamento misto 4x50m livre. “Eu ia nadar apenas duas provas: 50m livre e revezamento. Só que elas acabavam no meio dos Jogos e eu não queria me despedir no meio dos Jogos. Eu queria me despedir no último dia e na última prova das Paralimpíadas. Então nadei também os 100m livre e cheguei à final no último dia. Todo mundo queria ganhar, só que todo mundo veio para cima de mim e começou a me exaltar. Quando eu fui chamado para a prova, eu já fui com lágrimas, emocionado, chorando para caramba e aí, quando eu entro no Parque Aquático, todo mundo gritando o meu nome, todo mundo me aplaudinho e caindo lágrimas para caramba. Aí eu pensei que não queria que vissem que eu estava chorando e inventei de colocar o óculos. Aí é que eu não via mais nada. E não consegui nada. Fui para o bloco, pulei, cheguei na oitava colocação, não consegui ver nada do início ao final. Mas depois houve uma despedida emocionante, sensacional… E o que mais emocionou é porque eu vi a torcida brasileira me exaltando, me aplaudindo e a maioria das pessoas era sem deficiência”, lembra orgulhoso o atleta, que atualmente é mentor do Time Nissan, que apóia seis atletas olímpicos (a dupla Ágatha e Duda, do vôlei de praia, Hugo Calderano, do tênis de mesa, Ygor Coelho, do badminton, Renato Rezende, do BMX, e Ana Marcela Cunha, da maratona aquática) e cinco paralímpicos (Petrúcio Ferreira e Verônica Hypolito, do atletismo, Susana Schnardorf, da natação, Jane Karla, do tiro com arco, e Caio Ribeiro, da canoagem).

“Desde 2012, sou mentor do Time Nissan e ficou muito feliz com essa minha nova fase porque hoje estamos com Time Nissan 2.0 porque, além de estar mostrando essa minha experiência de vitórias e de derrotas para os seis atletas olímpicos e os cinco paralímpicos, eu também viajo todo o Brasil nas concessionárias, fazendo um trabalho de conscientização para os funcionários sobre como atender pessoas com deficiência na venda de carros”

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